28.2.06

Uma gazeta histórica

Na ressaca da Restauração, nasce a primeira gazeta portuguesa, precursora dos jornais. Tem um título, à luz da história, que é uma pequena (grande) delícia: Gazeta, em Que se Relatam as Novas Todas, Que Houve Nesta Corte, e Que Vieram de Várias Partes no Mês de Novembro de 1641.

A árvore genealógica dos ciberjornais, bem olhadas as coisas, passa também por aqui.

24.2.06

O procurador, el matador

A fama do procurador Souto Moura já chegou a Espanha. Título do El País sobre o recente raid na redacção do 24 Horas: «"¡Levanten las manos del teclado!"

22.2.06

Justiça e jornalismo

O jornalismo de investigação é o parente pobre dos media noticiosos portugueses. Na rádio, nas televisões e, mais escandalosamente, nos jornais e revistas. Mas os poucos jornalistas que ainda têm a coragem e a força de empregar o seu tempo na prática do género mais nobre do jornalismo preparam-se para dificuldades acrescidas.

Segundo se lê no DN de hoje, há uma proposta de alteração ao Código Penal que prevê que os jornalistas possam ser punidos «por se presumir que as suas investigações ponham em perigo uma investigação criminal». No limite, isso pode impedir estes profissionais de escrever sobre qualquer matéria em segredo de justiça. Preocupante.

Mais se lê que a lei que cria a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) prevê, no artigo 45.º, funções de fiscalização para os funcionários do regulador, que «são equiparados a agentes da autoridade».

Entre as prerrogativas da ERC inclui-se «aceder às instalações, equipamentos e serviços das entidades sujeitas à supervisão e regulação da ERC» e «requisitar documentos para análise e requerer informações escritas». Tudo isto sem necessidade de um mandado judicial. Muito preocupante.

É certo que medidas como estas resultam, em parte, da enorme irresponsabilidade e impunidade com que alguns media e muitos jornalistas tratam questões relacionadas com a justiça, e não só. Já há vários anos que venho escrevendo que se o jornalismo não souber tratar de se emendar a si mesmo, outros o farão por ele. Parece ser o que está em curso.

Agora, cuidado para não se passar do oito ao oitenta. Responsabilizar cada vez mais e melhor os jornalistas, sim. Procurar intimidá-los ou amedrontá-los, não. Para isso já bastam alguns "patrões" de mercearia.

A ler:
Legislação vai apertar investigação jornalística

21.2.06

Manchetes governadas

As manchetes de hoje do Público ('Governo quer crimes menos graves fora dos tribunais e das prisões') e do Jornal de Notícias ('Aulas de substituição passam a ser obrigatórias no Secundários') são o espelho de uma tendência que assentou arraiais na imprensa nos últimos meses: as manchetes made in governo.

Nem a imprensa económica escapa. O turbilhão de medidas tomadas pelo executivo de Sócrates tem dado origem a inúmeros títulos principais. O governo tornou-se uma espécie de centro de gravidade, uma sanguessuga, do espaço mais nobre das primeiras páginas. Um sintoma deveras preocupante.

Se os jornais fizessem da investigação jornalística própria a norma e não a excepção, teriam, certamente, melhores coisas para contar aos leitores.

16.2.06

Procuradoria: mais um tiro na água

O percurso canhestro da Procuradoria-Geral da República nos últimos anos anos, e em particular o seu papel desastrado no processo Casa Pia, já não deixam grande margem para qualquer benefício da dúvida em relação a Souto Moura.

O raid policial na redacção do 24 Horas, com contornos de filme hollywoodesco de fraca qualidade, parece ser mais uma demonstração de impotência e incompetência do que uma tentativa genuína de apurar responsabilidades, que estarão mais nos agentes da justiça que lidam directamente com o processo e não nos jornalistas que, neste caso, tiveram acesso a informação de manifesta relevância pública. Quanto mais não seja, para que os cidadãos tenham a noção de como a Procuradoria disfunciona.

Acresce que a incursão no 24 Horas abre precedentes gravíssimos em termos de violação de direitos elementares dos jornalistas, como o sigilo profissional e a protecção das fontes.

Os principais inimigos de Souto Moura não estão nas redacções. Estão dentro da barriga do monstro da justiça.


Outras leituras
A rusga ao 24 Horas: inquitações, de Manuel Pinto
Violações, de Henrique Monteiro

15.2.06

JN electrónico: memória gráfica

Andava por aí na Web a fazer umas escavações arqueológicas quando deparei com um pequeno gif dos tempos em que trabalhei na edição electrónica do JN (1995-1998). A pequena imagem animada, que chegou a ilustrar o site do jornal, estava numa página pessoal cuja última actualização foi feita em... Janeiro de 1998. A história do ciberjornalismo em Portugal também se faz com pequenas memórias destas.

13.2.06

Marcelo metralha

A rubrica dominical de Marcelo Rebelo de Sousa na RTP1 é um verdadeiro monólogo. Marcelo debita, ou melhor, metralha os argumentos em avalanche e a jornalista Sousa Dias limita-se praticamente a servir de microfone.

Sousa Dias é uma entrevistadora talentosa. Sabe ouvir. Mas, com Marcelo, limita-se quase só a ouvir. É uma pena. Melhor dizendo, é penoso.

9.2.06

Urbi de parabéns

O Urbi@Orbi, jornal online da Universidade da Beira Interior, está de parabéns, pois cumpre esta semana seis anos. Trata-se de uma publicação feita por estudantes universitários e é, salvo erro, o mais antigo do país no género.

A propósito, escrevi, na sequência de um amável convite do Urbi, um pequeno texto, Liberdade experimental. Afinal, uma outra forma de dizer: parabéns!

8.2.06

TV e Internet: danos colaterais

Para pais, educadores e professores terem em conta:

«Depois de meio século de televisão e uma década de Internet, as novas gerações são incapazes de adquirir informação de forma eficaz lendo um parágrafo, acostumadas que estão, cada vez mais, a ler só as palavras e frases curtas próprias dos meios electrónicos ou a assimilar conhecimentos mediante imagens.»

Kevin Devlin, matemático da Universidade de Stanford, citado no livro Ciberperiodismo, de David Parra Valcarce e José Álvarez Marcos.

30.1.06

Longevidade dos media

À atenção das empresas jornalísticas:

«A maior ameaça à longevidade dos media estabelecidos pode não ser um futuro que já chegou - poderá ser a sua inabilidade para fazer alguma coisa em relação a isso. Inércia burocrática, estrutura organizacional hierárquica e uma mentalidade de herança impediram muitas empresas jornalísticas de desenvolverem uma estratégia significativa nesta dinâmica era da informação.»

«Um pouco por todo o lado, os cidadãos juntam-se através da Internet de formas sem precedentes para defenirem a agenda das notícias, para se informarem uns aos outros sobre assuntos hiper-locais e globais e para criarem novos serviços numa sociedade sempre conectada. A audiência é agora uma activa e importante participante na criação e disseminação de notícias e informação, com ou sem a ajuda dos media jornalísticos mainstream

Shayne Bowman e Chris Willis, The Future Is Here, But Do News Media Companies See It?, Nieman Reports, Winter 2005

13.1.06

Jornais generalistas à frente

O Público.pt ocupa, merecidamente, o topo das preferências dos cibernautas portugueses que lêem jornais na Web. Em contrapartida, o JN, pioneiro nestas andanças online, surge apenas em quinto lugar, atrás do Correio da Manhã e do DN.

Dados da Marktest, divulgados hoje pelo DN, indicam ainda que «os sites dos jornais generalistas com edições impressas estão no topo das preferências dos cibernautas portugueses. Em segundo lugar, surgem os sites noticiosos exclusivamente online e, em terceiro, os sites dos jornais desportivos.»

Aqui, quem mais teria que dar à perna seriam os jornais exclusivamente online, como o Diário Digital e o Portugal Diário. Mas ambos parecem parados há muito.


A ler
:
'Sites' de jornais generalistas lideram

12.1.06

TSF: do volante para o teclado

Saúde-se o arranque do podcasting na TSF. Um sinal claro de tentativa de adaptação aos novos tempos tecnológicos, que correm de feição à metamorfose dos media. Talvez o futuro da rádio, e não só, dependa mesmo desta capacidade de adaptação permanente aos paradigmas do mundo online.

Através do iTunes, já pude subscrever e ouvir, por exemplo, os Sinais, de Fernando Alves, e uma crónica de Mel com Fel. E a coisa resulta.

Ouvir rádio é cada vez menos uma tarefa de relação próxima, directa, com o receptor que temos ao alcance da mão no automóvel ou no escritório. O computador online trata de tornar assíncrona e à la carte a experiência. É uma espécie de adaptação do conceito de Daily Me, de Negroponte, ao medium rádio. Mas nem por isso deixamos de estar a ouvir rádio. Os Sinais sabem sempre a rádio, seja ao volante ou ao teclado.

10.1.06

'Movida' nos jornais

Os jornais portugueses estão em queda, mas 2006 arranca sob o signo do empreendedorismo. O ex-director do Expresso quer fundar um novo semanário. Alberto Rosário tenciona comprar o moribundo Independente. O Comércio do Porto e A Capital podem vir a renascer pela mão de um empresário.

Tudo isto é óptimo e de aplaudir. Mas há questões a colocar desde logo. Por exemplo: o que move esta gente?

Dinheiro? Há negócios muito mais lucrativos. Prestígio? Há melhores meios de o ganhar. O empenhamento na nobre função de informar o melhor possível os cidadãos? Pouco crível.

Influência? Peso negocial em certos sectores? Uma aparente sensação de presidir a um quarto poder? Talvez seja mais isso. Ou não?

3.1.06

Votos impressos para 2006

Em 2006, gostava que os jornais portugueses que leio (Público, DN e Expresso à cabeça) fizessem mais jornalismo de investigação (já ouço as gargalhadas do pessoal nas redacções...); contextualizassem melhor os assuntos; me chapassem muito menos com o telejornal da noite anterior nas páginas; mandassem a agenda das conferências de imprensa e dos bitaites dos políticos de serviço às malvas; mandassem alguns colunistas profundamente chatos, nuns casos, e altamente duvidosos, noutros casos, dar uma volta ao bilhar grande do 24 Horas; apostassem, a sério, na reportagem fotográfica e na infografia; abandonassem de vez as tentações fashion, people e de humor de pechisbeque, do tipo que o Expresso faz na sua Revista; abrissem as páginas a novas áreas temáticas.

Enfim, já sei, são votos de um simples leitor. Do outro lado, isso exigiria bons "patrões", bons directores, bons editores, bons repórteres... E, do lado de cá, bons leitores, claro.

Mas esse país assim ainda está por inventar.

2.1.06

Ciberjornalistas ao telefone

Qual é o instrumento de trabalho mais importante de um ciberjornalista português? O computador? Errado. É o telefone.

Como explicava, recente e realisticamente, o director do Portugal Diário, «o instrumento de trabalho mais importante é o telefone, pois não há capacidade financeira para fazer reportagens.»