28.3.06

Défice crónica

Baptista-Bastos, distinguido com o Prémio de Crónica João Carreira Bom/Sociedade de Língua Portuguesa 2005, tem muita razão do seu lado ao dizer que os jornais portugueses baniram a crónica dos seus espaços, que se interessam cada vez mais por «politiqueira e politiquice» e que têm «opinião a mais e má opinião, muito uniforme e aparentemente plural».

É verdade. Infelizmente, é muito verdade.

25.3.06

JN e DN sem salero

Uma leve impressão: as primeiras páginas do JN e do DN, diários que foram alvo, recentemente, de uma remodelação gráfica (mais uma...), estão piores. São ambas mais secas e desvitalizadas que as anteriores.

As páginas interiores também não parecem particularmente entusiasmantes. O JN ficou, em certas secções, mais confuso. Virou amálgama de temas.

Mas o pior de tudo é que a cosmética, em ambos os diários, teima em não resolver o problema de fundo: aquela sensação de que, tirando uma ou outra coluna, uma ou outra (rara) "cacha", se chega à última página sem se ter lido alguma coisa que valha realmente a pena.

É pena.

20.3.06

JornalismoPortoRádio

O curso de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade do Porto (do qual sou docente) acaba de arrancar com uma iniciativa a todos os títulos louvável e estimulante: uma rádio na Web.

A JornalismoPortoRádio, que vem juntar-se ao portal JornalismoPortoNet, nasce no ano em que se assinalam os 100 anos da primeira transmissão de voz via rádio, por Reginald Fessenden. Trata-se de um «projecto extra-curricular para dotar a LJCC de um pólo de investigação e de prática laboratorial das tecnologias de produção e difusão radiofónica mais recentes.»

No plano dos conteúdos, «a webrádio terá uma forte componente informativa, incidindo sobre temas ligados à universidade, ensino, ciência, investigação, não esquecendo a vertente do entretenimento, com destaque para a música.»

Para os meus colegas que estão à frente da equipa da JornalismoPortoRádio (que têm uma grande experiência na rádio "tradicional"), e para os alunos que com eles estão a trabalhar, aqui ficam, desde já, os meus sinceros parabéns por este desbravar de novos caminhos da rádio no ciberespaço.

8.3.06

Frase idiota do ano

Pedro Rolo Duarte escreve hoje, no DN, a propósito de um debate televisivo sobre a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, aquela que é uma forte candidata a frase mais idiota do ano: «Pensei no que os anos me ensinaram: no jornalismo, quem não sabe fazer, ensina; e quem não sabe fazer nem ensinar, faz pareceres ou é crítico.»

'Expresso podcasting'

O semanário Expresso, um dos jornais que mais tempo demorou a reagir à webização jornalística, acaba de aderir ao podcasting.

Segundo notícia do próprio Expresso, «é o primeiro jornal online português a disponibilizar para os seus leitores entrevistas em podcast, permitindo que sejam ouvidas no computador ou num IPOD ou noutro leitor de mp3, em qualquer lado e a qualquer hora.»

Para já, dá para ouvir a entrevista a José Sócrates (publicada na última edição em papel) e o programa da SIC Notícias Expresso da Meia-Noite.

2.3.06

Mais jornalismo e cinema

Este é dos tais filmes que dá para recomendar, sobretudo a jornalistas, estudantes de comunicação e docentes nesta área, de olhos fechados, isto é, sem ainda se ter visto: Boa Noite, e Boa Sorte, sob a batuta de George Clooney, teve uma estreia auspiciosa em Veneza. Estreia hoje nas salas portuguesas.

Eis a sinopse, retirada do Cinecartaz do Público.pt: «A acção de "Boa Noite, e Boa Sorte" decorre nos primórdios do jornalismo televisivo, na América dos anos 50. O filme retrata o conflito verídico entre Edward R. Murrow, um "pivot" pioneiro na América dos anos 50, e o Senador Joseph McCarthy e a Comissão do Senado das Actividades Anti-Americanas. Graças à sua vontade de esclarecer o público, o inovador Murrow e a sua dedicada equipa da CBS desafiam pressões da empresa e dos patrocinadores ao analisar as mentiras e as tácticas rasteiras de McCarthy durante a sua "caça às bruxas" aos comunistas.»

Já agora, para quem se interessa pela temática dos media e do jornalismo, recomendo ainda dois filmes que chegaram recentemente ao mercado de DVD de aluguer: Crónicas, uma produção México/Equador, realizada por Sebastián Cordero, e o horripilantemente titulado Um Amor em África, cujo título no original é bem mais decente, In My Country, realizado por John Boorman.

O que poderá ver no interessante Crónicas: «O programa de televisão “Uma hora com a Verdade” é transmitido todas as noites de Miami para toda a América Latina, com as histórias sensacionalistas mais fortes que se podem encontrar. Para um desses programas, o apresentador Manolo Bonilla (John Leguizamo) voa para o Equador, na companhia da produtora Marisa (Leonor Watling) e o operador de imagem Ivan (José Maria Yazpik), seguindo a pista de um violador e assassino de crianças, conhecido como “O Monstro de Babahoyo”. A morte acidental de uma criança leva os habitantes de uma pequena povoação a quase linchar Vinicio Cepeda (Damián Alcázar), um humilde vendedor de Bíblias. A intervenção de Manolo salva a vida do homem. É uma grande história para o programa. Vinicio é mesmo encarcerado, por homicídio involuntário, e oferece a Manolo informações sobre o “Monstro”, a troco de uma reportagem sobre a sua injusta situação. Manolo aceita, atraído pelo lado obscuro que pressente em Vinicio, e começa a quebrar todas as regras, decidido a ser ele o herói que detém o assassino com as suas próprias mãos.» (PT Gate)

E em Um Amor em África, um filme mediano, onde Juliette Binoche enche, uma vez mais, todo o ecrã: «Langston Whitfield (Samuel L. Jackson) é um jornalista do Washington Post, enviado à Africa do Sul para cobrir as sessões da Comissão da Verdade e Reconciliação. Ele está apreensivo em relação à viagem, tal como está céptico relativamente ao processo de reconciliação, sentindo que é apenas uma forma de os perpetradores escaparem ao castigo. Anna Malan (Juliette Binoche) é uma poetisa africana que cobre as sessões para a rádio estatal sul africana e NPR nos Estados Unidos. Anna é uma entusiasta do processo, tem um grande respeito pelas tradições africanas nativas e tem grandes esperanças relativamente ao seu país. Como membros da imprenssa internacional, Anna e Langston encontram-se e estão instantaneamente em desacordo relativamente às suas perspectivas opostas das sessões. Mas, com o tempo, a experiência compartilhada de ouvir os testemunhos comoventes e dolorosos aproxima-os cada vez mais.» (PTGate)

28.2.06

Uma gazeta histórica

Na ressaca da Restauração, nasce a primeira gazeta portuguesa, precursora dos jornais. Tem um título, à luz da história, que é uma pequena (grande) delícia: Gazeta, em Que se Relatam as Novas Todas, Que Houve Nesta Corte, e Que Vieram de Várias Partes no Mês de Novembro de 1641.

A árvore genealógica dos ciberjornais, bem olhadas as coisas, passa também por aqui.

24.2.06

O procurador, el matador

A fama do procurador Souto Moura já chegou a Espanha. Título do El País sobre o recente raid na redacção do 24 Horas: «"¡Levanten las manos del teclado!"

22.2.06

Justiça e jornalismo

O jornalismo de investigação é o parente pobre dos media noticiosos portugueses. Na rádio, nas televisões e, mais escandalosamente, nos jornais e revistas. Mas os poucos jornalistas que ainda têm a coragem e a força de empregar o seu tempo na prática do género mais nobre do jornalismo preparam-se para dificuldades acrescidas.

Segundo se lê no DN de hoje, há uma proposta de alteração ao Código Penal que prevê que os jornalistas possam ser punidos «por se presumir que as suas investigações ponham em perigo uma investigação criminal». No limite, isso pode impedir estes profissionais de escrever sobre qualquer matéria em segredo de justiça. Preocupante.

Mais se lê que a lei que cria a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) prevê, no artigo 45.º, funções de fiscalização para os funcionários do regulador, que «são equiparados a agentes da autoridade».

Entre as prerrogativas da ERC inclui-se «aceder às instalações, equipamentos e serviços das entidades sujeitas à supervisão e regulação da ERC» e «requisitar documentos para análise e requerer informações escritas». Tudo isto sem necessidade de um mandado judicial. Muito preocupante.

É certo que medidas como estas resultam, em parte, da enorme irresponsabilidade e impunidade com que alguns media e muitos jornalistas tratam questões relacionadas com a justiça, e não só. Já há vários anos que venho escrevendo que se o jornalismo não souber tratar de se emendar a si mesmo, outros o farão por ele. Parece ser o que está em curso.

Agora, cuidado para não se passar do oito ao oitenta. Responsabilizar cada vez mais e melhor os jornalistas, sim. Procurar intimidá-los ou amedrontá-los, não. Para isso já bastam alguns "patrões" de mercearia.

A ler:
Legislação vai apertar investigação jornalística

21.2.06

Manchetes governadas

As manchetes de hoje do Público ('Governo quer crimes menos graves fora dos tribunais e das prisões') e do Jornal de Notícias ('Aulas de substituição passam a ser obrigatórias no Secundários') são o espelho de uma tendência que assentou arraiais na imprensa nos últimos meses: as manchetes made in governo.

Nem a imprensa económica escapa. O turbilhão de medidas tomadas pelo executivo de Sócrates tem dado origem a inúmeros títulos principais. O governo tornou-se uma espécie de centro de gravidade, uma sanguessuga, do espaço mais nobre das primeiras páginas. Um sintoma deveras preocupante.

Se os jornais fizessem da investigação jornalística própria a norma e não a excepção, teriam, certamente, melhores coisas para contar aos leitores.

16.2.06

Procuradoria: mais um tiro na água

O percurso canhestro da Procuradoria-Geral da República nos últimos anos anos, e em particular o seu papel desastrado no processo Casa Pia, já não deixam grande margem para qualquer benefício da dúvida em relação a Souto Moura.

O raid policial na redacção do 24 Horas, com contornos de filme hollywoodesco de fraca qualidade, parece ser mais uma demonstração de impotência e incompetência do que uma tentativa genuína de apurar responsabilidades, que estarão mais nos agentes da justiça que lidam directamente com o processo e não nos jornalistas que, neste caso, tiveram acesso a informação de manifesta relevância pública. Quanto mais não seja, para que os cidadãos tenham a noção de como a Procuradoria disfunciona.

Acresce que a incursão no 24 Horas abre precedentes gravíssimos em termos de violação de direitos elementares dos jornalistas, como o sigilo profissional e a protecção das fontes.

Os principais inimigos de Souto Moura não estão nas redacções. Estão dentro da barriga do monstro da justiça.


Outras leituras
A rusga ao 24 Horas: inquitações, de Manuel Pinto
Violações, de Henrique Monteiro

15.2.06

JN electrónico: memória gráfica

Andava por aí na Web a fazer umas escavações arqueológicas quando deparei com um pequeno gif dos tempos em que trabalhei na edição electrónica do JN (1995-1998). A pequena imagem animada, que chegou a ilustrar o site do jornal, estava numa página pessoal cuja última actualização foi feita em... Janeiro de 1998. A história do ciberjornalismo em Portugal também se faz com pequenas memórias destas.

13.2.06

Marcelo metralha

A rubrica dominical de Marcelo Rebelo de Sousa na RTP1 é um verdadeiro monólogo. Marcelo debita, ou melhor, metralha os argumentos em avalanche e a jornalista Sousa Dias limita-se praticamente a servir de microfone.

Sousa Dias é uma entrevistadora talentosa. Sabe ouvir. Mas, com Marcelo, limita-se quase só a ouvir. É uma pena. Melhor dizendo, é penoso.

9.2.06

Urbi de parabéns

O Urbi@Orbi, jornal online da Universidade da Beira Interior, está de parabéns, pois cumpre esta semana seis anos. Trata-se de uma publicação feita por estudantes universitários e é, salvo erro, o mais antigo do país no género.

A propósito, escrevi, na sequência de um amável convite do Urbi, um pequeno texto, Liberdade experimental. Afinal, uma outra forma de dizer: parabéns!

8.2.06

TV e Internet: danos colaterais

Para pais, educadores e professores terem em conta:

«Depois de meio século de televisão e uma década de Internet, as novas gerações são incapazes de adquirir informação de forma eficaz lendo um parágrafo, acostumadas que estão, cada vez mais, a ler só as palavras e frases curtas próprias dos meios electrónicos ou a assimilar conhecimentos mediante imagens.»

Kevin Devlin, matemático da Universidade de Stanford, citado no livro Ciberperiodismo, de David Parra Valcarce e José Álvarez Marcos.