31.12.07

Sobreconsumo de celebróides

«Os Gregos consideravam que os deuses deploravam as manifestações de triunfo e os grandes sucessos que levavam os homens a transpor a sua condição de mortais. Por sua vez, os meios de comunicação social hipermodernos dão um relevo sem precedente aos olimpianos (estrelas de cinema, top models, playboys, desportistas, multimilionários, etc.) que parecem viver num plano superior da existência. Actualmente, já não consumimos apenas coisas, mas sobreconsumimos o espectáculo hiperbólico da felicidade das personagens celebróides.»


Gilles Lipovestky, A Felicidade Paradoxal

29.12.07

Últimos momentos de Bhutto partilhados

As imagens dos momentos que antecederam o assassínio de Benazir Bhutto remetem-nos para o célebre vídeo de Zapruder, que captou, "em directo", a morte do presidente Kennedy.

Hoje, o vídeo dos instantes finais de Bhutto corre o mundo num ápice e propaga-se na Web graças, também, à ajuda de uma modalidade em crescimento: a partilha, facilitada pela abertura do código que permite fazer o embebimento de vídeos em sítios e blogues.

Pela primeira vez durante um grande acontecimento noticioso, assinala Andy Plesser, vídeos criados pela Reuters e outras empresas jornalísticas de peso (Washington Post e Wall Street Journal, por exemplo) estão a ser "partilhados" através do embed, à boa moda do YouTube.

Deste modo, material tipicamente jornalístico extravasa, de forma legal, para um vasto número de sítios não-jornalísticos. O vídeo do assassinato da ex-primeira-ministra do Paquistão constitui, por isso, um marco no percurso dos média online.

28.12.07

O ardina electrónico

Numa altura em que abundam os móveis e telemóveis prognósticos tecnológicos para 2008, e em que a imprensa parece uma barata tonta com a pancada dada pelos gratuitos, nada como embelezar a memória relembrando um exercício prospectivo feito, há 37 anos, pelos japoneses da Toshiba.

«Será desta maneira que vai receber o seu jornal no futuro?» A imagem mostra um jornal de papel a sair do interior de uma caixa parecida com um rádio.

É uma pequena pérola esta foto, datada de 1970. O «ardina electrónico» era mais prosaicamente identificado como «facsimile receiver». Imprimia ambos os lados da folha simultaneamente em seis minutos.

Quase quatro décadas depois, ainda andamos às voltas com ciberquiosques e «ardinas electrónicos» a fornecerem-nos os jornais na Web em formato PDF para imprimir.

21.12.07

Ciberjornalismo em Portugal 2007

2007 não foi um ano de boa colheita para o ciberjornalismo em Portugal. No essencial, confirmou a relativa estagnação, em termos de investimento e inovação, vivida após o "boom" registado na viragem do século. Ainda assim, algumas marcas merecem registo.

O Público.pt foi, de novo, o que mais se destacou pela positiva. Fez uma remodelação gráfica significativa e apostou no vídeo, criando, para o efeito, uma pequena equipa. Nas restantes edições online dos principais diários nacionais, o panorama manteve-se, a todos os títulos, deprimente.

O Expresso online fez algumas mudanças. O grafismo melhorou. A aposta no vídeo (Expresso TV) foi feita, ainda que de forma limitada. A interacção com os leitores foi fomentada. Notou-se preocupação em reforçar a componente multimédia.

Da SIC, também do grupo Impresa, vieram sinais claros de aposta na convergência, numa lógica de integração de redacções, televisiva e online. A nível internacional, a convergência deu muito que falar, dividindo analistas quanto aos prós e contras da tendência. Mas, tal como o vídeo, parece ter vindo para ficar. A rádio começou a perceber isto. Logo no início do ano, o site da Rádio Renascença começara a incorporar vídeo.

No Diário Digital, houve uma discreta mudança de director: Pedro Curvelo substituiu Filipe Rodrigues da Silva. O jornal anunciou, para Janeiro, novas secções e o reforço dos conteúdos informativos da área desportiva e económica e da área dedicada aos utilizadores. O concorrente mais directo, o PortugalDiário, está, há muito tempo, na mesma.

Esperemos, pois, que 2008 sirva para dar a volta ao generalizado estado de penúria ciberjornalística nacional. Mesmo assim, já vamos chegar tarde ao futuro.

13.12.07

Novas técnicas, novas frustrações

«Depois da explosão da Internet, tudo se acalmará porque o dia tem 24 horas e as necessidades de comunicação do ser humano não se satisfazem completamente. Vamos atrás de um sonho. A comunicação humana é difícil e é um erro pensar que só a técnica ajudará a melhorá-la. Não é verdade. Criamos novas técnicas e nascem novas frustrações sobre as nossas expectativas de comunicação.»

Dominique Wolton, Ciberp@ís

Travessias na memória sobre Dominique Wolton:
Ser individual
Pensar a técnica


12.12.07

Jornalismo móvel extremo

Uma jornalista alemã tem estado a fazer, para o jornal Die Welt, a cobertura jornalística multimédia de uma regata transatlântica. Joerdis Guzman usa apenas um computador portátil, uma pequena câmara de vídeo e um telefone-satélite rudimentar.

Por isso, há já quem fale em "jornalismo móvel extremo". É o caso de Robb Montgomery, da Visual Editors, que considera este um bom exemplo de uma estória multimédia porque, usando ferramentas básicas da Web, o jornalista faz com que a audiência acompanhe a par e passo a corrida.

Montgomery explica, com recurso a um vídeo do Google Earth, esta cobertura jornalística extremamente móvel:


A ler:
Extreme mobile journalism

7.12.07

Jornalistas, fontes e a Internet

O jornalista Rui Gomes defendeu, anteontem, na Universidade Nova de Lisboa, a sua tese de mestrado (que tive o prazer de arguir), intitulada A importância da Internet no relacionamento entre jornalistas e fontes de informação.

O tema é bastante interessante e pouco estudado em Portugal. Rui Gomes procurou saber como a Internet está a ser usada por jornalistas portugueses de imprensa, rádio e televisão. Chegou a algumas conclusões que vale a pena reter:

* A quase totalidade dos jornalistas inquiridos tem uma opinião «extremamente positiva» sobre a Internet, o que leva, segundo o autor do estudo, a uma visão «cor-de-rosa» do meio e a uma confiança excessiva no material encontrado online.

* Quase 90 por cento dos jornalistas inquiridos utilizam a Internet nas suas peças jornalísticas. O uso é menor por parte dos jornalistas de televisão.

* O email é utilizado por 72.83 por cento como ferramenta para encontrar e contactar fontes de informação.

* A maioria considera que a Internet facilita o seu trabalho, melhora a qualidade do mesmo e torna as notícias mais diversas.

* A facilidade de contacto com fontes é uma das vantagens da utilização da Internet destacadas com particular relevo na imprensa.

* Os newsgroups são pouco utilizados pelos jornalistas dos três meios, enquanto os blogues são mais utilizados pelos jornalistas de imprensa.

* Os jornalistas de imprensa defendem que a fixação dos jornalistas nas redacções é um facto (sedentarização do jornalismo, tendência que preocupa Rui Gomes), enquanto os jornalistas de rádio discordam totalmente.


A tese, na qual Rui Gomes defende que «a Internet mudou a forma como se faz jornalismo e a própria profissão», irá agora ser publicada em livro.

6.12.07

Caras e claras

A vedetização, "jetsetização" e transformação de jornalistas em objectos de marketing é um dos fenómenos mais repelentes do jornalismo contemporâneo.

2.12.07

Um Kindle para ler

A Amazon desenvolveu um dispositivo de leitura de livros, revistas, jornais e blogues. Talvez por isso seja um pouco redutor chamar-lhe e-book. O Kindle herda parte da (longa) investigação feita no campo dos livros electrónicos, mas vai mais longe.

O vídeo promocional sobre o Amazon Kindle é bastante convincente (e a infografia digital publicada hoje no ELPAÍS.com dá uma boa ajuda). Mas, como a história das novas tecnologias nos ensina, nem sempre as boas ideias vencem na prática.

Não obstante, o Kindle, potenciando várias tecnologias hoje consolidadas, como é o caso das redes móveis, constitui, no mínimo, um excelente exercício prospectivo do acto de ler.



Travessias na memória:
Dois jornais para o próximo milénio
A tinta que não pinta
O livro do desassossego

28.11.07

NYT: credenciais jornalísticas e aptidões técnicas

Fiona Spruill, editora da edição Web do New York Times, tem estado a responder a perguntas dos leitores num espaço próprio criado para o efeito, o "Talk to the Newsroom".

A uma pergunta, relacionada com as aptidões necessárias para trabalhar numa redacção digital como a do diário nova-iorquino, Spruill respondeu que são exigidas sólidas credenciais jornalísticas e fortes aptidões técnicas:

«Our Web newsroom is closely integrated with the print newsroom, so I am looking for people who can flourish in both worlds and who I could see fitting into many different jobs at The Times. Among other things, producers are responsible for packaging the news online and for creating original multimedia. As a result, they need to have solid journalism credentials and strong technical skills.

On the technical side, we want people to walk in the door with a proficiency in Photoshop, HTML and blogging software, and an understanding of Web publishing systems. Experience in the production of multimedia — including the use of audio and video editing tools — is strongly desirable. For our more specialized multimedia positions, we expect to see an extensive knowledge of Flash and an understanding of how to integrate databases into multimedia presentations.»

A redacção digital do New York Times tem 60 produtores e editores, que asseguram a publicação de forma ininterrupta, 24 sobre 24 horas.

23.11.07

New York Times também converge

O New York Times também entrou na onda da convergência. Acaba de estrear um novo edifício, desenhado pelo famoso arquitecto Renzo Piano, onde trabalharão juntas as redacções tradicional e digital (até agora funcionavam em edifícios separados).

A propósito desta mudança, o diário nova-iorquino produziu um vídeo que nos permite ver e entrar no novo mundo, convergente e integrado, do Times. Os editores Jim Roberts e Jon Landman explicam as vantagens de jornalistas e ciberjornalistas partilharem o mesmo espaço:

22.11.07

Ciberjornais mais simples

A homepage do MSNBC, recentemente redesenhada, está bastante agradável. A par de outras, esta mudança dá-nos a ver pelo menos três tendências em subida no grafismo dos ciberjornais: simplificação, aligeiramento e horizontalização dos conteúdos dispostos nas páginas.

Por contraste, podemos ver, por exemplo, a homepage do New York Times, ainda muito marcada pelo grafismo da versão em papel, vertical (cinco colunas) e com uma mancha de títulos e entradas bastante compacta.

19.11.07

O Público.pt está melhor, mas pode ir mais longe

Primeira observação: em termos gráficos, o novo Público.pt está melhor. Aproxima-se, com a estreia, hoje, de um novo figurino, do modelo de cibejornais como ELPAÍS.com, cujo design tem sido elogiado por diversos especialistas na área e premiado. A opção pelas três colunas e pela diferenciação do tipo de letra nos títulos aumenta, em muito, a legibilidade da homepage do diário da Sonae.

Segunda observação: na comparação directa com o ELPAÍS.com, a "primeira página" do Público.pt perde em termos de atractividade na área da fotografia: no diário espanhol, as fotos são mais abundantes, maiores e aparecem mais destacadas aos longo dos ecrãs de "scroll" necessários para visualizar toda a homepage. No ELPAÍS.com, tal como o Guardian Unlimited, por exemplo, vemos também mais cor nos cabeçalhos de algumas secções. A cor, usada com equilíbrio, torna as páginas mais atraentes.

Terceira observação: a nova secção de vídeo é uma das apostas mais promissoras, ainda que se note não estar em velocidade de cruzeiro. O grafismo do Público Vídeo é simples, como deve ser; a usabilidade é boa; o tamanho do ecrã dos vídeos é apropriado, com a correcta opção "full screen"; a duração dos anúncios, curta, afigura-se ideal; também correcta parece ser a contenção nas opções do tipo "web 2.0" (Digg, Newsvine, Technorati, etc.); falta a opção "embed", mas, convenhamos, ainda será cedo para dar um passo que, até agora, poucos ciberjornais de renome se atreveram a dar.

Independentemente dos aspectos a melhorar, o Público.pt deu mais um passo arrojado e na direcção certa no sentido de se aproximar do que de melhor se vai fazendo por esse mundo fora em termos de ciberjornalismo, um território onde muito ainda está por descobrir e inventar. Em Portugal, nem se fala.


A ler:
PÚBLICO passa a ter vídeos no seu site a partir de hoje

17.11.07

Público.pt com novo grafismo

Depois de amanhã, o Público.pt estreia um novo desenho. Terá três colunas, em vez das actuais quatro, com a barra de navegação a passar da vertical à esquerda para a barra superior horizontal, à semelhança do que fazem vários ciberjornais de referência, como é o caso do ELPAÍS.com.

A principal novidade, como já aqui referi, é a aposta no vídeo, com a criação do Público Vídeo, secção de cinco elementos liderada por Alexandre Martins, editor Multimédia. «Focado em reportagens e entrevistas, o Público Vídeo pretende contar com a colaboração de todos os profissionais da redacção do diário.» (Meios & Publicidade). Há aqui, portanto, um pequeno passo dado no sentido da convergência.