23.8.05

De leituras: nova retórica

«Os jornalistas contam nos cibermeios o que ocorre na sociedade com uma nova retórica, a do hipertexto jornalístico, que actua como guia no discurso jornalístico. Apesar da readaptação que se está a produzir nos géneros, linguagens, programas executáveis... o certo é que o hipertexto já abriu as portas a outra forma de contar o que se passa na sociedade.»

Xosé López García, em Manual de Redacción Ciberperiodística.

4.8.05

DN: de mudança em mudança...

Se, um dia, alguém se lembrar de escrever um manual sobre como escangalhar um jornal em tempo recorde deve dar o exemplo do que tem sido feito com o Diário de Notícias nos últimos anos.

O diário lisboeta (no qual trabalhei durante quatro anos) já na última fase da direcção de Mário Bettencourt Resendes andava, de um ponto de vista de linha editorial, completamente à deriva, oscilando entre a procura do jornalismo de referência, tendo em vista a concorrência com o Público, e as mais desvairadas manchetes tablóide.

Depois, veio o monumental desastre chamado Fernando Lima, cuja nomeação, com o beneplácito das cúpulas da PT, arruinou muita da credibilidade do título. E as vendas vieram por aí abaixo. O equívoco Lima durou apenas um ano.

Seguiu-se, depois da "novela" trapalhona que envolveu Clara Ferreira Alves e a saída do colunista Vasco Pulido Valente, Miguel Coutinho, que tentou recentrar a imagem do jornal, apostando na referência, conseguindo assim suster, e mesmo inverter ligeiramente, a tendência de queda nas vendas. Sabe-se agora que o novo patrão, Joaquim Oliveira, já fez saber que não conta com a actual direcção, que assim dura apenas oito meses.

Ora, não há jornal que resista a tanta asneira feita de forma tão certeira e concentrada. Mudanças constantes de direcção, nomeações feitas com base em critérios de interesse político, erros clamorosos de "casting" (incluindo na administração do jornal) só podem dar no que tem dado.

Esperemos agora, para bem do jornalismo menos mau que se faz em Portugal, que não venha por aí uma nova direcção saída da chuteira que estiver mais à mão de Oliveira.


A ler:
Oliveira substitui direcção do “DN” logo que o negócio esteja fechado

31.7.05

Asfixia mediática

Num país que mal lê jornais e em que estes são cada vez mais anódinos, superficiais, indistintos, domesticados, centralizados e empresarializados, a suspensão (belo eufemismo) de A Capital e de O Comércio do Porto é uma péssima notícia. Pior ainda para o Porto, cidade que tem vindo, paulatinamente, a transformar-se num deserto mediático e jornalístico.

É absolutamente escandaloso que o Porto não tenha estaleca sequer para segurar um canal próprio de televisão. A NTV foi o que se viu. Na rádio, anos antes, foi a vez de a Rádio Nova, que chegou a ser um farol de qualidade, ser transformada em mais uma juke box inconsequente, com meninas de voz melada a gerir play lists...

Na imprensa, o próprio Jornal de Notícias, o porta-aviões do Norte, já foi mais da Invicta do que é hoje. O Primeiro de Janeiro pouco se vê. As delegações das revistas e dos jornais de Lisboa, ou são simbólicas, ou foram alvo de desinvestimento, sobretudo editorial, nos últimos anos (Correio da Manhã e Diário de Notícias, por exemplo). O 24 Horas é para esquecer. E O Comércio do Porto acaba mal, às mãos de um grupo espanhol que se está nas tintas para 150 anos de história.

Resultado: a diversidade e a pluralidade (de notícias, de debates, de protagonistas, de ideias) vêem-se reduzidas e o mercado de emprego, bem como o de estágios, torna-se cada vez mais afunilado. O espaço público da região fica ainda mais pobre.

De um ponto de vista mediático, o Porto é hoje uma paróquia.


A ler:
O cemitério, de Vicente Jorge Silva
Sentença de Morte, de Manuel Pinto
Blogue OComerciodoPorto

29.7.05

Teleinternet

A entrada da televisão na Internet acabará por transformá-la. A teleinternet não será uma televisão de massas, mas antes a la carte. Permitirá complementar a oferta, necessariamente massificada, dos canais tradicionais.

Estas são asserções que servem de ponto de partida para um pequeno artigo que Francis Pisani escreveu no CiberP@is e que merece uma leitura atenta.

19.7.05

A 'videoblogosfera'

A onda dos videoblogues começa a ganhar dimensão e parece ter um potencial altamente promissor. O conceito do vlogue é muito simples: em vez de posts de texto, o videobloguista exibe excertos de vídeo.

Na revista Wired (dica do Ponto Media), pode ler-se um trabalho de Katie Dean sobre a emergência desta web trend, em que já se experimenta um pouco de tudo: o vereador de Boston que, no seu vlogue, responde a perguntas dos eleitores; um fulano que mostra como estrelar ovos num passeio escaldante; outro que conta histórias da sua terra natal; um outro que mostra o seu "show" noticioso diário; e há ainda o Clint Sharp, que exibe um programa semanal sobre tecnologia.

Na videoblogosfera (chamemos-lhe provisoriamente assim), tal como na blogosfera, vê-se muita criação individual que jamais passaria nos media audiovisuais tradicionais. Os vlogues, diz um analista citado na artigo da Wired, transformar-se-ão num complemento ao broadcasting tradicional.

Tendo em conta a experiência criativa e proveitosa dos blogues, não será difícil antever a explosão imaginativa que se adivinha à medida que a videoblogosfera se for expandindo e diversificando. O aperfeiçoamento do hardware e do software necessários aos vlogues tratarão, certamente, de facilitar a afirmação de novos talentos nesta área. Tal como aconteceu com os diários pessoais de papel, os vídeos caseiros passarão a ter um outro alcance, uma outra formatação, com a passagem para a Web.

A narrativa audiovisual, de muitas maneira balizada, por exemplo, nos canais de TV (que são media simultaneamente controlados e controláveis), ver-se-á liberta de quase todas as grilhetas. Os posts de vídeo serão o que os vloguistas quiserem, da forma que bem entenderem. Para o bem e para o mal, como nos ensina a história da Internet.

15.7.05

Vídeo no papel

O conhecido tablóide The Sun diz ser o primeiro diário britânico a fornecer blocos noticiosos em vídeo, que são produzidos especificamente para o Sun Online pela Press Association.

Cada bloco dura um minuto e meio e é actualizado quatro vezes por dia, embora, em casos especiais, a actualização possa ser feita mais frequentemente, como escreve Jemina Kiss, no journalism.co.uk.

Ora aqui está um exemplo a seguir por muitos outros jornais por esse mundo fora, com os de referência a terem aqui obrigações especiais. Um jornal online não pode, não deve, ser um mero repositório de conteúdos produzidos para o papel. O seu espaço de publicação é a Web, um meio multimédia, ou melhor, hipermédia, por natureza e excelência. Esta é uma certeza que, apesar de "histórica", permanece ainda ignorada por uma parte substancial do ciberjornalismo mundial.

É por isso que muitos sites noticiosos ainda são uma grande seca.

11.7.05

No olho do furacão

A propósito do furacão Dennis, ELPAIS.es elaborou um pequeno infográfico animado que nos coloca "En el ojo del huracán". Simples. Fantástico.

7.7.05

Londres e os media online portugueses

As explosões em Londres deram-se na hora de ponta matinal, por volta das 9. São quase 2 da tarde, ou seja, quase cinco horas depois das deflagrações. Vejamos como estão a reagir a este acontecimento muito especial alguns dos principais media noticiosos portugueses online:

Público.pt: dá informação actualizada, estilo agência noticiosa. Poucas imagens. Nenhum material multimédia é fornecido (ex., gráficos, áudio ou vídeo). Não são disponibilizadas hiperligações de contexto sobre o acontecimento. Algumas notícias abrem espaço a comentários dos leitores.

dn.pt: para o DN, não se passa nada. Abre-se o site, clica-se em "Última hora" e... nada. Londres bem podia estar a arder...

JN: nas "Últimas", tem três notícias curtas sobre o assunto, a primeira das quais colocada às... 12.12h. E nada mais.

Correio da Manhã: acordou às 10.59 para as explosões. Tem uma notícia única com comentários dos leitores no final. E uma fotozita para a amostra.

Expresso: Aqui encontramos de diferente, pelo menos, um infográfico com as estações de metro atingidas e uma galeria fotográfica. Vá lá...

Diário Digital: tem um "Especial Urgente", no que parece ser uma adaptação algo tosca da expressão "breaking news". Vários títulos dão acesso a notícias de agência. Não há fotos nem comentários de leitores. Para diário exclusivamente online, está mau. Muito mau.

Portugal Diário: Também não tem nada de especial. Texto, muito texto. Uma galeria de fotografias. Comentários de leitores. Paginas graficamente "secas". Sabe a pouco. A muito pouco.

TSF: Pela primeira vez, e naturalmente, som na Web. Da rádio, está claro. Quanto ao mais, estilo agência noticiosa.

SIC Online: Um infográfico! E depois muita Lusa, Reuters e France Press. Nem uns 15 segundos de vídeo que podia ser aproveitado dos canais de televisão do grupo. Fraquíssimo.

ELPAIS.es: é espanhol, eu sei, mas serve aqui apenas como mero contraponto cruel: tem vídeo, gráficos, galeria de fotos, cronologias, áudio, enfim, sem ser nada de extraordinário, deixa os nosso media online a anos-luz em termos de resposta na Web a grandes acontecimentos.

É evidente que há várias explicações concretas - que vão do desinvestimento por parte das empresas jornalísticas até à falta de investimento por parte de anunciantes - para a resposta medíocre dos media portugueses online. Quando não há meios, nem dinheiro, nem vontade, também não há milagres. Mas nem por isso se torna menos confrangedor verificar, na prática, o estado brutal de atraso destes media. É mais uma área para ajudar a colocar o país na cauda da Europa em quase tudo. Pessimismo high tech?

1.7.05

Unilateralismo na rede

Ora aqui está mais um belo exemplo do "multilateralismo" da actual administração norte-americana: as petições feitas pela União Europeia e pela América Latina para que o controlo das infra-estruturas básicas da Internet passe para as mãos de um organismo internacional recebeu uma resposta negativa por parte dos EUA, que actualmente controlam os servidores de raiz da rede mundial.

Segundo El Pais, a administração Bush anunciou que não entrega esta competência nem prescinde da tutela que exerce sobre o ICANN, o órgão de governo da Internet.

27.6.05

Negócio mal cheiroso

O empresário Joaquim Oliveira está preocupado com o negócio que fez com a PT para a compra da Lusomundo. Terá dito, segundo o Expresso, que comprou um porco e arrisca-se a ficar com um leitão.

Ora, para bem do mundo da comunicação social e do jornalismo em Portugal, o ideal era mesmo que Oliveira não ficasse sequer com um leitãozinho raquítico da Bairrada.

25.6.05

De leituras: guardiães ameaçados

«A venerável profissão do jornalismo encontra-se num raro momento da história onde, pela primeira vez, a sua hegemonia como gatekeeper das notícias é ameaçada por, não apenas novas tecnologias e competidores, mas, potencialmente, pela audiência que serve. Armada com ferramentas de publicação fáceis de usar, conexões em permanência e dispositivos móveis cada vez mais poderosos, a audiência online tem os meios para se tornar uma activa participante na criação e disseminação de notícias e informação.»

Shayne Bowman e Chris Willis, 'We Media: How Audiences are Chaping the Future of News and Information'

13.6.05

Blogues: jornalismo pós-moderno?

Vários autores defendem hoje que os blogues são uma nova forma de jornalismo que enfatiza a personalização, a participação da audiência na criação de conteúdo e formas de estórias que são fragmentadas e interdependentes com sites.

Para Melissa Wall, da California State University-Northridge, «estas características sugerem um afastamento da abordagem moderna tradicional do jornalismo em direcção a uma nova forma de jornalismo impregnada de sensibilidades pós-modernas.»

Num artigo escrito para a revista Journalism, (Volume 6, Número 2, Maio de 2005), Wall relata as conclusões de um estudo sobre blogues orientados para a notícia, durante a invasão do Iraque, na Primavera de 2003. A autora conclui que estes blogues representam um novo género de jornalismo, com um tipo de notícias mais conversacional, dialógico e descentralizado.

Wall sugere que os blogues podem mais abrangentemente ser entendidos como ‘jornalismo pós-moderno’, argumentando que, se o jornalismo tradicional do século XX é visto como um produto da modernidade, então as mudanças sociais dos últimos anos que levaram observadores a identificar um período de hipermodernidade ou pós-modernidade precisam de ser consideradas quando se fala do futuro do jornalismo.

8.6.05

Dez anos de ciberjornalismo: balanço

Daniela Bertocchi e Sérgio Denicoli escreveram uma interessante reportagem para o Observatório de Imprensa (Brasil) sobre as jornadas "Dez Anos de Jornalismo Digital em Portugal", que tiveram lugar, na semana passada, na Universidade do Minho. Uma iniciativa a todos os títulos louvável e oportuna, num país que quase não discute este tipo de temas.

O texto A Internet e o declínio dos jornais e uma entrevista a Ramon Salaverría, um dos principais oradores das jornadas, resumem muitos dos tópicos abordados em Braga.

Também no portal do curso de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade do Porto pode ler-se um resumo das jornadas feito por Letícia Amorim ("Uma década de jornalismo digital é muito pouco") e uma entrevista da mesma aluna a Rosental Calmon Alves, professor da Universidade do Texas.

30.5.05

Ciberjornalismo: peças de baú

Agora que o ciberjornalismo ou jornalismo digital português se prepara para assinalar a sua primeira década, lembrei-me de dar uma espreitadela no baú de alguns textos que escrevi, então no Jornal de Notícias, nesses tempos idos de pioneirismo, experimentação, excitação e, aqui e ali, de desilusão. Quando tudo era novo e incerto e a curiosidade enorme...

Os jornais do futuro na rota de Barcelona (1995)

Os herdeiros do videotexto (1995)

Jornalistas portugueses apostam na Net (1996)

TSF: a rádio em directo na rede (1996)

Cornetas perdidas no meio da orquestra? (1996)

Os novos jornalistas (1996)

Jornais digitais em contagem crescente (1996)

El País Digital à maneira de uma agência de notícias (1996)

Mindy McAdams: Jornais electrónicos devem ser rápidos e breves (1996)


Na minha "velhinha" homepage, há ainda mais passado sobre esta história...

27.5.05

Deus no ar

A parte lúcida do povo da América tem mais uma razão para ficar preocupada com o rumo da nação: a ascenção dos media dos cristãos evangélicos (corrente em que Bush se filia), onde a fé se mistura com as notícias.

A Columbia Journalism Review resume assim o fenómeno: «Deus está no ar». Por satélite, por cabo, pelo éter, Deus chega a milhões de lares dos EUA pela mão dos evangélicos, que estão a construir um vasto universo mediático, incluindo música, filmes, sitcoms, reality TV e programas noticiosos sobre assuntos públicos, «uma potente mistura de Deus, notícias e política de direita». Tudo isto, frisa a CJR, regado com uma visão conservadora do mundo.