28.9.05

Autoridade em causa

Artur Portela bateu com a porta na Alta Autoridade para a Comunicação Social, «em protesto contra o que considera ser a pressão do Governo para a alteração da metodologia de análise sobre a renovação das licenças de televisão.» (Público).

Portela explica que «o acto de um membro do Governo (Augusto Santos Silva) que convida o presidente de um órgão regulador - que é independente - para lhe dizer que as coisas devem ser feitas de certa forma e num determinado prazo, tem uma carga política».

A saída de Portela, numa altura em que a AACS está para acabar, vem adensar as suspeitas de intromissão do governo (sempre negada pelo mesmo) no processo de renovação das licenças dos canais privados, de modo a facilitar o negócio da venda da TVI ao grupo espanhol Prisa. A confirmarem-se, são gravíssimas.

Ora, este avolumar de suspeição tem, a prazo, pelo menos uma consequência: envenenar irremediavelmente o nascimento da Entidade Reguladora da Comunicação Social.

22.9.05

Público.pt: dez anos

O Público assinala hoje o 10º aniversário da sua edição electrónica. Está, pois, de parabéns.

Ao longo dos anos, e apesar das muitas dificuldades financeiras que o projecto conheceu, o Público.pt lá se foi mantendo, com avanços e recuos, mas sempre com um mínimo de dignidade e coerência. Dos seus concorrentes mais directos na Web, o DN e o JN, não se pode dizer o mesmo.

Em 1999, o Público.pt deu um salto importante, ao introduzir o serviço Última Hora, dando corpo a uma das principais exigências do ciberjornalismo: a imetiatez. Longe ainda dos padrões de diários como El País (para não irmos mais longe), ainda assim tem cumprido.

Outra marca distintiva, e muito positiva, foi a decisão de nomear um director próprio para o Público.pt., José Vítor Malheiros, que esteve também na origem do projecto.

O Público.pt tem, por isso, potencial para crescer e melhorar, pois há muito a fazer, em particular nos capítulos da interactividade, da hipertextualidade, da multimedialidade e mesmo da navegabilidade. O texto tem de ser equilibrado com material multimédia, de modo a aproximar este jornal de um verdadeiro medium noticioso da Web.

Ainda assim, dez anos passados, o Público.pt mantém-se um pequeno oásis no panorama deprimente e amador do ciberjornalismo português.

20.9.05

maisautárquicas.com: uma boa ideia

O grupo Impresa teve uma boa ideia ao lançar o sítio maisautárquicas.com., uma plataforma aglutinadora de conteúdos da SIC, do Expresso e da Visão para a cobertura das eleições autárquicas.

O sítio incorpora algumas das mais recentes ferramentas e modalidades ao dispor do ciberjornalismo, como o RSS, os blogues ou espaços para os cidadãos "fazerem" jornalismo pelas suas próprias mãos, e disponibiliza algum material multimédia, o grande calcanhar de Aquiles dos jornais digitais portugueses. Há galerias fotográficas do Expresso, vídeos da SIC e alguma infografia digital rudimentar. O texto, no entanto, é predominante.

Onde o sítio falha mesmo é no "embrulho": o grafismo é algo morno, não há uma articulação integrada dos diferentes elementos multimédia e a exploração das potencialidades do hipertexto deixa a desejar.

Não obstante, trata-se de uma iniciativa louvável, ainda para mais quando é tida num contexto de grande marasmo do ciberjornalismo português. Acresce que lança algumas pistas interessantes (noutros países há muito concretizadas) sobre o funcionamento multitextual dos grupos de comunicação.

17.9.05

Quem tem medo da Prisa?

Pôr a TVI nas mãos da Igreja foi um enorme erro patrocinado por um governo de direita, ao tempo de Cavaco. A gestão beata do canal revelou-se penosa. A tabloidização comercial do canal pela mão de Moniz aumentou substancialmente os níveis de poluição televisiva e degradação jornalística. Depois disto tudo, a pobre direita portuguesa ainda tem medo dos espanhóis?

13.9.05

De leituras: a Internet e os homens arcaicos

Um dos traços mais preocupantes no que à evolução das novas tecnologias diz respeito é a forma acrítica com que elas são incorporadas pelas pessoas no seu dia-a-dia. Se é novo, se é prático, se é bem, se é barato... é bom. Use-se e abuse-se. O telemóvel é um bom e recente exemplo de como se pode passar, num ápice, da utilidade à febrilidade.

O turbilhão de novidades e gadgets associados ao emergir das tecnologias não deixa, em geral, grande espaço para reflexões críticas. Neil Postman demonstra-o, de forma cabal, no seu brilhante Tecnopolia. Torna-se, portanto, importante alertar para a necessidade de estarmos sempre atentos ao que dizem os "velhos do restelo".

Alain Finkielkraut e Paul Soriano são dois nomes que, para muitos, caberão naquela categoria. Ao primeiro, escritor e professor de filosofia em França, costumam os adversários chamar neo-reaccionário. O segundo dirige um instituto de prospectiva, virado para as questões da sociedade em rede.

As suas opiniões sobre a Internet estão reunidas no livro Internet, o Êxtase Inquietante, publicado por cá em 2002. Para tecnófilos militantes, esta obra será um amontoado de provocações. Para quem acreditar que da diversidade de opiniões nasce o interesse, é de ler.

Finkielkraut olha de lado para a revolução digital. E diz continuar desligado das "forças vivas", «mantendo as novas máquinas à distância, barricando-me de certa maneira no que ficou para trás, agarro-me à minha caneta, à minha papelada, e aos meus amigos queridos, os livros». Abomina o ecrã. Zurze quem acredita que a Internet na sala de aula "produz" melhores alunos. Teme o fim da privacidade e da intimidade, a vigilância omnipresente. Um resistente, portanto, ao «democrático total da técnica desenfreada». Como resistir a provocações deste calibre?

E explana assim: «A Internet é o perigo que corre a liberdade quando se pode conservar o traço seja do que for, mas é também o perigo que fazemos correr aos outros e a nós próprios quando gozamos de uma liberdade sem limites.»

E pergunta ainda o seguinte, de uma forma pertinente e de grande fôlego: «Apresentam-nos a Internet como um magnífico instrumento de informação e de comunicação, mas para quê tanta informação, tanta comunicação? E o lugar para o resto - para tudo o que na nossa vida não depende nem da informação nem da comunicação? Que lugar fica para a contemplação? Que lugar para a admiração? Que lugar para a ruminação? Que lugar para a solidão?»

Quem não gostar destas inquietações existenciais de Finkielkraut pode sempre responder, em tom pragmático, com aquela frase de uma canção dos U2: «You miss to much these days if you stop to think».

Soriano, por seu lado, preocupa-se com a invasão das "próteses técnicas" no meio ambiente humano, colocando-nos sempre disponíves, sempre acessíveis na rede, cujo tempo é «um eterno presente que é uma presença permanente». A rede, funcionando em registo de interrupção frenética, «aniquila os grandes momentos que estruturam a vida dos homens arcaicos».

Leia-se, ainda: «As próteses técnicas com que nos equipamos febrilmente (a começar pelo telemóvel) assemelham-se sob este aspecto às pulseiras electrónicas dos presos no meio da cidade.»

Em dois pequenos textos, Finkielkraut e Soriano levantam questões e colocam problemas que dão para uma boa discussão sobre as novas tecnologias, quase sempre alvo de adoração, poucas vezes objecto de discussão. A sério.

8.9.05

O Google vai na conversa

Na edição de hoje do CiberPa@is, Antonio Espejo escreve sobre o Google Talk, um programa, ainda em versão beta, que permite aos utilizadores da Net falarem uns com os outros. Dantes, os chats eram à base de texto. Agora, pode ouvir-se, com qualidade, a voz dos amigos.

Espejo explica aos leitores como se instala, configura e faz chamadas no Google Talk, «dos mais austeros de aspecto e funcionamento, mas com uma eficácia de som que surpreende quando se fala pela primeira vez.»

Expresso Online mexe

Há novidades no Expresso Online e, diga-se de passagem, ainda bem. Um ex-repórter fotográfico, Luiz Carvalho, é o novo editor, que substitui Mário Carvalho, e já estará a preparar alterações no grafismo e nos conteúdos do sítio.

Luiz Carvalho fala em aumento da interactividade com os leitores (o que é sempre bom) e em disponibilização de material multimédia (o que é óptimo). Mas esperemos que o Expresso Online não se fique por aqui: o "porta-aviões" da Impresa tem arcaboiço para voos mais arrojados.

2.9.05

Katrina: recursos online

Os leitores da Online Journalism Review resolveram criar uma lista de hiperligações para sítios profissionais e de cidadãos que estão a cobrir o furacão Katrina. Sitios noticiosos, blogues, listagens de pessoas desaparecidas, sítios de assistência a desastres, como a Cruz Vermelha, wikis (Katrina Help Wiki), sítios com informação de contexto (bases de dados, mapas, etc.). Uma boa ideia no meio da enorme catástrofe.

Entretanto, na Wikipedia, a enciclopédia livre da Internet, já está disponível uma entrada sobre o Katrina. E trata-se de uma entrada fabulosa, com muita informação relevante compilada. Faz-se uma exploração exaustiva de hiperligações, fornecendo-se ao mesmo tempo enquadramentos, estatísticas, efeitos económicos, etc.. No topo da entrada, um aviso à navegação: «Este artigo documenta um acontecimento em desenvolvimento. A informação pode mudar rapidamente.» Ou não estivessemos nós na Internet.

No Travessias: Katrina: NYT demole Bush

23.8.05

De leituras: nova retórica

«Os jornalistas contam nos cibermeios o que ocorre na sociedade com uma nova retórica, a do hipertexto jornalístico, que actua como guia no discurso jornalístico. Apesar da readaptação que se está a produzir nos géneros, linguagens, programas executáveis... o certo é que o hipertexto já abriu as portas a outra forma de contar o que se passa na sociedade.»

Xosé López García, em Manual de Redacción Ciberperiodística.

4.8.05

DN: de mudança em mudança...

Se, um dia, alguém se lembrar de escrever um manual sobre como escangalhar um jornal em tempo recorde deve dar o exemplo do que tem sido feito com o Diário de Notícias nos últimos anos.

O diário lisboeta (no qual trabalhei durante quatro anos) já na última fase da direcção de Mário Bettencourt Resendes andava, de um ponto de vista de linha editorial, completamente à deriva, oscilando entre a procura do jornalismo de referência, tendo em vista a concorrência com o Público, e as mais desvairadas manchetes tablóide.

Depois, veio o monumental desastre chamado Fernando Lima, cuja nomeação, com o beneplácito das cúpulas da PT, arruinou muita da credibilidade do título. E as vendas vieram por aí abaixo. O equívoco Lima durou apenas um ano.

Seguiu-se, depois da "novela" trapalhona que envolveu Clara Ferreira Alves e a saída do colunista Vasco Pulido Valente, Miguel Coutinho, que tentou recentrar a imagem do jornal, apostando na referência, conseguindo assim suster, e mesmo inverter ligeiramente, a tendência de queda nas vendas. Sabe-se agora que o novo patrão, Joaquim Oliveira, já fez saber que não conta com a actual direcção, que assim dura apenas oito meses.

Ora, não há jornal que resista a tanta asneira feita de forma tão certeira e concentrada. Mudanças constantes de direcção, nomeações feitas com base em critérios de interesse político, erros clamorosos de "casting" (incluindo na administração do jornal) só podem dar no que tem dado.

Esperemos agora, para bem do jornalismo menos mau que se faz em Portugal, que não venha por aí uma nova direcção saída da chuteira que estiver mais à mão de Oliveira.


A ler:
Oliveira substitui direcção do “DN” logo que o negócio esteja fechado

31.7.05

Asfixia mediática

Num país que mal lê jornais e em que estes são cada vez mais anódinos, superficiais, indistintos, domesticados, centralizados e empresarializados, a suspensão (belo eufemismo) de A Capital e de O Comércio do Porto é uma péssima notícia. Pior ainda para o Porto, cidade que tem vindo, paulatinamente, a transformar-se num deserto mediático e jornalístico.

É absolutamente escandaloso que o Porto não tenha estaleca sequer para segurar um canal próprio de televisão. A NTV foi o que se viu. Na rádio, anos antes, foi a vez de a Rádio Nova, que chegou a ser um farol de qualidade, ser transformada em mais uma juke box inconsequente, com meninas de voz melada a gerir play lists...

Na imprensa, o próprio Jornal de Notícias, o porta-aviões do Norte, já foi mais da Invicta do que é hoje. O Primeiro de Janeiro pouco se vê. As delegações das revistas e dos jornais de Lisboa, ou são simbólicas, ou foram alvo de desinvestimento, sobretudo editorial, nos últimos anos (Correio da Manhã e Diário de Notícias, por exemplo). O 24 Horas é para esquecer. E O Comércio do Porto acaba mal, às mãos de um grupo espanhol que se está nas tintas para 150 anos de história.

Resultado: a diversidade e a pluralidade (de notícias, de debates, de protagonistas, de ideias) vêem-se reduzidas e o mercado de emprego, bem como o de estágios, torna-se cada vez mais afunilado. O espaço público da região fica ainda mais pobre.

De um ponto de vista mediático, o Porto é hoje uma paróquia.


A ler:
O cemitério, de Vicente Jorge Silva
Sentença de Morte, de Manuel Pinto
Blogue OComerciodoPorto

29.7.05

Teleinternet

A entrada da televisão na Internet acabará por transformá-la. A teleinternet não será uma televisão de massas, mas antes a la carte. Permitirá complementar a oferta, necessariamente massificada, dos canais tradicionais.

Estas são asserções que servem de ponto de partida para um pequeno artigo que Francis Pisani escreveu no CiberP@is e que merece uma leitura atenta.

19.7.05

A 'videoblogosfera'

A onda dos videoblogues começa a ganhar dimensão e parece ter um potencial altamente promissor. O conceito do vlogue é muito simples: em vez de posts de texto, o videobloguista exibe excertos de vídeo.

Na revista Wired (dica do Ponto Media), pode ler-se um trabalho de Katie Dean sobre a emergência desta web trend, em que já se experimenta um pouco de tudo: o vereador de Boston que, no seu vlogue, responde a perguntas dos eleitores; um fulano que mostra como estrelar ovos num passeio escaldante; outro que conta histórias da sua terra natal; um outro que mostra o seu "show" noticioso diário; e há ainda o Clint Sharp, que exibe um programa semanal sobre tecnologia.

Na videoblogosfera (chamemos-lhe provisoriamente assim), tal como na blogosfera, vê-se muita criação individual que jamais passaria nos media audiovisuais tradicionais. Os vlogues, diz um analista citado na artigo da Wired, transformar-se-ão num complemento ao broadcasting tradicional.

Tendo em conta a experiência criativa e proveitosa dos blogues, não será difícil antever a explosão imaginativa que se adivinha à medida que a videoblogosfera se for expandindo e diversificando. O aperfeiçoamento do hardware e do software necessários aos vlogues tratarão, certamente, de facilitar a afirmação de novos talentos nesta área. Tal como aconteceu com os diários pessoais de papel, os vídeos caseiros passarão a ter um outro alcance, uma outra formatação, com a passagem para a Web.

A narrativa audiovisual, de muitas maneira balizada, por exemplo, nos canais de TV (que são media simultaneamente controlados e controláveis), ver-se-á liberta de quase todas as grilhetas. Os posts de vídeo serão o que os vloguistas quiserem, da forma que bem entenderem. Para o bem e para o mal, como nos ensina a história da Internet.

15.7.05

Vídeo no papel

O conhecido tablóide The Sun diz ser o primeiro diário britânico a fornecer blocos noticiosos em vídeo, que são produzidos especificamente para o Sun Online pela Press Association.

Cada bloco dura um minuto e meio e é actualizado quatro vezes por dia, embora, em casos especiais, a actualização possa ser feita mais frequentemente, como escreve Jemina Kiss, no journalism.co.uk.

Ora aqui está um exemplo a seguir por muitos outros jornais por esse mundo fora, com os de referência a terem aqui obrigações especiais. Um jornal online não pode, não deve, ser um mero repositório de conteúdos produzidos para o papel. O seu espaço de publicação é a Web, um meio multimédia, ou melhor, hipermédia, por natureza e excelência. Esta é uma certeza que, apesar de "histórica", permanece ainda ignorada por uma parte substancial do ciberjornalismo mundial.

É por isso que muitos sites noticiosos ainda são uma grande seca.

11.7.05

No olho do furacão

A propósito do furacão Dennis, ELPAIS.es elaborou um pequeno infográfico animado que nos coloca "En el ojo del huracán". Simples. Fantástico.