20.12.06

Show de fotografia no MSNBC.com

É um slide show de se lhe tirar o chapéu. O site MSNBC.com montou com uma selecção das fotos do ano. As imagens são brilhantes. Algumas delas (Bagdad...) são fortes. O conjunto é uma delícia, como fotos da actualidade, desporto, espaço. O leitor é convidado a escolher a melhor.

Tudo parece estar no sítio certo com o ritmo apropriado: o áudio do comentário, as legendas que acompanham as fotos, o design, a montagem (em Flash, claro). Como diria, em conciso inglês, a Mindy McAdams: «Exceptional picture editing. Stunning presentation. Brilliant pacing.»

Nem mais.

19.12.06

Jornais sociais

Em declarações ao Público, edição de hoje, a propósito da última capa da revista Time, defendo que os media tradicionais devem estar bem atentos ao que se passa na chamada Web 2.0. Títulos de referência, como El Pais e New York Times, por exemplo, dão claros sinais de que não estão à espera que o futuro lhes caia em cima de repente.

O New York Times acaba de disponibilizar, em certas notícias, links para agregar o seu conteúdo em alguns sites sociais, como Digg ou Newsvine (dica de Jornalismo & Internet). Desde a última remodelação, ELPAIS.com passou a fazer o mesmo (del.icio.us, Technorati, Digg, etc.).

Por outras palavras: o tempo das "cartas do leitor" já passou à história. A maior parte dos jornais é que ainda não deu por isso.

18.12.06

Time escolhe-o para pessoa do ano

A revista Time já escolheu a pessoa do ano: você. «Sim, você. Você controla a Era da Informação. Bem-vindo ao seu mundo.»

14.12.06

Um diamante multimédia

Um fotojornalista andou por África, Índia, Europa e EUA no rasto das rotas dos diamantes. O site noticioso MSNBC.com agarrou nas fotos e montou um "pacote" multimédia, em Flash, digno de ser visto com atenção.

A produção de A Diamond's Journey exigiu: um produtor multimédia sénior, um produtor de interactividade, um designer sénior, um designer de infografia digital, um director de multimédia, um director de interactividade, e um director de arte.

Ali para os lados do MSNBC.com não se brinca em serviço.

12.12.06

A imprensa digital que se segue

A edição de 2007 do Livro Branco da Imprensa Diária espanhola foi apresentada, ontem, em Madrid. O professor universitário Ramón Salaverría escreveu um dos capítulos. Logo a abrir, faz uma síntese, com a qual concordo inteiramente, dos tempos que correm:

«Os diários aproximam-se da mudança mais importante da sua história: o momento em que o papel, acossado por novas formas de consumo informativo de uma nova geração de leitores, deverá dar o lugar ao suporte digital. Isto não significará necessariamente que os diários de papel desapareçam, mas sim que percam a sua actual hegemonia editorial e publicitária a favor de novas modalidades de publicação digital difundidas através da Internet e de outras redes móveis. Em consequência, poucas questões são tão prioritárias para os diários como preparar-se adequadamente para essa mudança de modelo. Apesar disso, cumprida já mais de uma década desde que os primeiros jornais irromperam na Internet, os diários titubeiam ainda na hora de encarar as suas operações editoriais na rede.»

Os directores dos jornais portugueses, e não só, talvez não perdessem nada se, nos próximos tempos, pusessem este Livro Branco no topo das prioridades de leitura.

4.12.06

Seres digitais

Nada que surpreenda por aí além: os meios de comunicação digitais já são os mais utilizados entre a população mundial, que lhes dedicam mais horas semanais que à televisão, à rádio, aos jornais ou ao cinema.

Segundo o estudo Digital life 2006, da União Internacional de Telecomunicações, as comunicações são cada vez «mais digitais, mais móveis e mais largas».

Também não surpreende que sejam os jovens com menos de 18 anos os que mais se agarram aos média digitais em detrimento dos "analógicos", leia-se, televisão, rádio, jornais, etc..

É exactamente por aqui que o desenho da estratégia dos média deve começar. Sob pena de os raios catódicos, o papel, as ondas hertzianas ou o grande ecrã passarem num ápice à condição ingrata de irrelevância.

Aquele "velho" conceito de mediamorfose, de Roger Fidler, faz cada vez mais sentido.

1.12.06

Desinvestigação jornalística

Felícia Cabrita, na SIC Notícias: nos EUA, um jornalista de investigação pode passar um ano atrás de uma estória: em Portugal, ao fim de três/quatro meses começam a chamar-lhe «calaceiro».

27.11.06

Ciberjornalismo: desdém

Conservadorismo, monolitismo, horror à mudança, amor à rotina, desconfiança em relação à novidade e um certo autismo, são ainda marcas fortes de muitas redacções 'tradicionais'. No que diz respeito ao ciberjornalismo, as coisas vão mudando. Mas, devagar, devagarinho... pois toda a mudança é sinónimo de stress.

Há uma década, as coisas eram bem piores. Mas ainda hoje estamos neste ponto: «"Neste momento, a grande maioria [de jornalistas] olha-nos com algum desdém", confirma o subcoordenador da redacção online da SIC, Ricardo Rosa, referindo-se ao sentimento de desvalorização que as redacções principais manifestam pelo trabalho online - e que constitui uma das principais dificuldades. Uns chamam-lhes jornalistas de secretária, "outros pensam que estamos a copiar o trabalho deles". Felizmente para o responsável, "é uma maioria menor do que era há quatro anos, vai havendo uma integração".» (DN)

21.11.06

LASTAMPA.it renova

O LASTAMPA.it acaba de estrear um novo visual. Tal como fez o ELPAIS.com, passou para 1024 pixels. O corpo da letra dos textos está maior, mais legível. Na versão online do diário italiano La Stampa aposta-se agora nos blogues dos leitores.

Esta mudança parece menos ambiciosa que a do ELPAIS.com, que reforçou a aposta na imediatez (actualização constante), no multimédia e na interactividade, com destaque para as ferramentas da chamada Web 2.0 (del.icio.us, Digg, Technorati, etc.)

Em ambos os casos, no entanto, predomina ainda o multimédia por justaposição, isto é, o vídeo e o áudio, por exemplo, surgem desgarrados em vez de verdadeiramente integrados nas notícias. Não obstante, há mais material multimédia disponibilizado, algo que por si só já é positivo em empresas cuja matéria-prima original é o papel.

19.11.06

Nasce o ELPAIS.com

O ELPAIS.es está prestes a mudar. De nome, para ELPAIS.com, de desenho e de conteúdos.

A aposta vai ser na imediatez, no multimédia (destaque para apresentação de notícias em formato vídeo) e na participação dos cidadãos. Apostas correctas, portanto.

O ciberjornalismo, em Espanha, mexe.

16.11.06

Diploma em jornalismo

É uma pena importarmos do Brasil apenas jogadores de futebol e telenovelas. Há decisões que valiam bem um voo transatlântico. Para abalar uma certa ordem jornalística por cá fossilizada:

«O Superior Tribunal de Justiça decidiu que, para ser registrado como jornalista, o profissional deve atender a exigência de possuir um diploma de nível superior em Jornalismo.» (in Jornalismo & Internet)

12.11.06

ELPAIS.es: o melhor da Península

O ELPAIS.es acaba de vencer o prémio, atribuído pela Society of News Design, de jornal digital melhor desenhado do ano 2006 em Espanha e Portugal, na categoria de média online com mais de 10 milhões de visitas. Merecidíssimo.

Se houver dúvidas quanto à justeza do prémio, espreite-se a edição Web da revista EP3, a EP3.es. E, já agora, começando pela crítica do concerto de Antony em Madrid. Ele arrasou os madrilenos e arrasou-nos a nós em Braga, no belíssimo Theatro Circo, anteontem à noite.

Na Web, como no palco, quem sabe sabe.

11.11.06

Que se passa no Porto? (II)

A propósito de uma entrada recente aqui no Travessias Digitais sobre o "desaparecimento" do Porto das páginas dos principais jornais portugueses, o João Paulo Meneses chama, em boa hora, a atenção para o facto de, pela primeira vez na história do Porto, as três rádios "nacionais" (TSF, Antena 1 e Rádio Renascença) produzirem noticiários nacionais a partir da Invicta: a TSF no horário nobre da manhã, a RR e a A1 ao almoço.

Ora, aqui está um bom sinal de rádio que não deve passar despercebido. É pena que os jornais não sigam o exemplo. E, pelo que anda por aí no ar, os próximos tempos serão ainda piores.

3.11.06

A hora da 'música social'

Esta nova "vaga" na Web é muito interessante: depois do Orkut e as redes sociais, do Flickr e o intercâmbio social de fotos, parece ter chegado a hora da "revolução da música social" através de rádios à la carte como Last.fm, Pandora ou iRate.

A estória vem contada, em pormenor, no CiberP@is.

30.10.06

Vídeo no texto da economia

Não é nenhum ovo de Colombo, nem um salto quântico multimédia no ciberjornalismo português. Mas não deixa de ser um passo inteligente por parte do Diário Económico. O vídeo chegou às páginas do DiarioEconomico.com numa altura em que os ciberjornais generalistas continuam a dormir na forma e a investir praticamente zero. Seja no que for.

A ideia é simples: «A partir de hoje, pelo menos três vezes por dia, o Diário Económico vai ser o primeiro jornal português a disponibilizar no seu site comentários económicos em formato de vídeo sobre a actualidade e o dia do mercado bolsista.» (Público)

Implicará esta pequena inovação investimentos gigantescos? Não. Estará tecnicamente apenas ao alcance dos génios do MIT? Nem por sombras.

A partir de hoje, «o cantinho do Diário Económico onde se faz televisão» vai ser usado três vezes por dia. Se a maioria dos ciberjornais quisesse usar a cabeça e tivesse vontade de sair da pasmaceira, faria o mesmo.

27.10.06

Que se passa no Porto?

Se aplicarmos o critério da visibilidade noticiosa do Porto nos principais jornais portugueses, o Porto está morto.

O Porto, cidade e Área Metropolitana, está em morte lenta no Público. Moribundo no DN. Definhando no Expresso. Não existe no Sol. O Correio da Manhã tem mais em que pensar. O 24 Horas é para esquecer.

Só o JN, que tem sofrido na pele das suas páginas sérias queimaduras provocadas pela(o) capital, lá vai aguentando as suas páginas do Grande Porto. Um milagre.

Que se passa? É o péssimo feitio e estreiteza de vistas de Rui Rio? É a sujidade do rio Douro que afugenta as empresas, os "cérebros", os artistas, investidores, as elites, e as entrega nos braços da Quinta da Marinha? É a cidade histórica a cair de podre que deprime o pulsar da urbe? São as crateras lunares das ruas que dão cabo dos Jaguares?

Ou, então: será que no Porto não se passa mesmo nada?

20.10.06

Sol e Expresso: ganha o melhor

Quem já viu a cara do Sol e conhece bem o Expresso (no melhor e pior que tem) não estranhará esta notícia: «A maioria dos leitores portugueses de semanários prefere o Expresso ao novo Sol, segundo um estudo efectuado pela Marktest». (Público)

17.10.06

No Teatro Rivoli

Rui Rio e a Cultura têm umas contas de calculadora a ajustar. Mas isso não irá acontecer nesta vida. O "caso" Rivoli está neste ponto:

«A Câmara Municipal do Porto cortou a iluminação e colocou o ar condicionado no máximo do frio numa tentativa de acabar com o protesto de um grupo de actores e espectadores que se mantêm barricado há mais de 30 horas no Rivoli Teatro Municipal.»

O Publico.pt apanhou bem a polémica no ar e abriu um blogue, o No Teatro Rivoli. A provar que há boas ideias que ficam de graça.

14.10.06

Palmas e Bordoadas: no Sol

A edição de hoje do Sol folheia-se em cinco minutos. Não se pára em nenhum apeadeiro porque não aparece nada verdadeiramente estimulante para ler. No caderno principal, não há 'notícias duras'. Temos o bom velho estilo herdado do Expresso: mexericos políticos de alto nível. Pouco mais. A investigação "a sério" prometida pelo director? Nada. É quase tudo requentado, já visto.

Os colunistas desencorajam. São "cromos" gastos de tanta exposição mediática. A Tabu parece ser dirigida por Margarida Rebelo Pinto, também ela ilustre colunista da casa. Revista frívola. Lux. De Caras. Inenarrável aquela novela dos bastidores da saída de José António Saraiva do semanário de Pinto Balsemão. Por este andar, o Sol arrisca-se a brilhar por pouco tempo. A bem do pluralismo, gostava imenso de me enganar neste pessimista cálculo de risco.

9.10.06

Encontro de Weblogs no Porto

O 3º Encontro Nacional e 1º Encontro Luso-Galaico sobre Weblogs está à porta. Começa na próxima sexta-feira e termina no dia seguinte, no auditório da Reitoria da Universidade do Porto.

A ideia deste encontro, coordenado pelo meu colega Fernando Zamith, é «juntar investigadores, utilizadores e interessados em weblogs em Portugal e na Galiza» e tem como principal objectivo «contribuir para a exploração deste tema e fomentar o desenvolvimento de uma comunidade de reflexão e investigação transdisciplinar nesta área.»

Os principais oradores são José Luis Orihuela, Enrique Dans e Manuel Pinto. O programa pode ser lido aqui.

O encontro é organizado pelo Centro de Estudos das Tecnologias, Artes e Ciências da Comunicação (CETAC.COM) da Universidade do Porto com o apoio da Licenciatura em Jornalismo e Ciências da Comunicação (LJCC) da mesma universidade.


P.S. Declaração de interesses: faço parte das comissões de organização e científica deste encontro.

8.10.06

O futuro dos média hoje

Muito oportuno e bastante acessível, o conjunto de peças que o Público hoje publica sobre os desafios que os média enfrentam é para ler e guardar.

Lead: «Os especialistas estão de acordo: o jornalismo está a sofrer a maior transformação desde a industrialização da imprensa escrita no século XIX. Os desafios são muitos. Há uma avalanche de novas tecnologias que colocam novos desafios à profissão. Os media buscam a estratégia certa para responder a esses desafios. "Convergência" é a palavra-chave».


A ler:
Os media olham o futuro: "O melhor dos tempos e pior dos tempos"

6.10.06

De leituras: Mediatizados

Um tema interessante a pedir leitura urgente: os média contemporâneos estão a moldar as nossas vidas de formas completamente novas? O mundo, como já dizia Shakespeare, é mesmo um grande palco e nós meros actores?

O antropólogo e professor universitário norte-americano Thomas de Zengotita acha que sim. E desenvolve a ideia num livro que acaba de ser publicado: Mediatizados – Como os Média Moldam o Nosso Mundo e o Modo Como Vivemos.

Excerto da sinopse: «Do funeral da princesa Diana à perspectiva do terrorismo à escala global, de cenas de sexo na Sala Oval à política de cowboyada em terras distantes, Mediatizados guia-nos por cada departamento da nossa sociedade intensamente mediatizada. A cada esquina vemo-nos tal qual somos, mergulhados em opções, rodeados por representações e forçados por estas circunstâncias a transformar as nossas vidas em actuações. »

Peter Preston, do Guardian, já leu e gostou. E deixa-nos, a nós, com uma grande vontade de partir para esta leitura.

3.10.06

Os deuses dos média

Eis mais uma novidade que tresanda a éter: a TSF vai estrear um «novo formato de comentário» (novo formato?) com «cinco das principais figuras da vida política portuguesa».

Que figuras? Pedro Santana Lopes (PSD), Carlos Carvalhas (PC), António Pires de Lima (CDS/PP), António Vitorino (PS), e Joana Amaral Dias (BE).

Esta gente anda claramente a disputar o papel a Deus: está em todo lado, em horário nobre.


A ler:
TSF cede espaço ao comentário matinal

2.10.06

Publico.pt recua e refresca

O Publico.pt fez bem em tornar de novo gratuito o acesso à reprodução da edição de papel (com excepção de crónicas, artigos de opinião, editoriais, etc.).

Uma das referências do Publico.pt, o ELPAIS.es, havia dado este passo há cerca de um ano. É que, por exemplo, o número de páginas visitadas e a visibilidade nos motores de busca e até nos blogues tende a diminuir, nalguns casos drasticamente, sempre que os ciberjornais optam pela cobrança total. Nem sempre é boa jogada.

As restantes mudanças hoje estreadas, sem serem radicais ou espectaculares, melhoram o jornal. Os assinantes, por exemplo, passam a ter acesso, entre outros serviços, ao Público Digital, que permite visualizar, através do clique sobre uma interface gráfica, as páginas tal como elas se apresentam no papel (A Bola online, por exemplo, já estava a usar este sistema). O tratamento gráfico dos artigos, no entanto, continua a não ser o melhor para um espaço como a Web.

Este refrescamento tem um valor acrescentado por acontecer num momento sobremaneira difícil na vida interna do Público, nomeadamente ao nível financeiro.

E, a partir de agora, já podemos, de novo e felizmente, remeter para os artigos da página de media do Publico.pt:

Público reabre acesso gratuito à edição impressa na Internet

30.9.06

De leituras: notícias online

Há muitas e boas razões para ler o livro Online News: Journalism and the Internet, mas a profundidade da reflexão feita pelo próprio autor não é uma delas.

São poucos os parágrafos do livro em que Stuart Allan disserta, na primeira pessoa, sobre as questões abordadas. A obra, no entanto, é largamente compensada pela documentação exaustiva utilizada e pela chamada à discussão de uma plêiade de autores e de profissionais dos média que tornam esta leitura obrigatória para quem se interessa pelo mundo das notícias no ciberespaço e o seu impacto no campo do jornalismo.

Da ascenção das notícias online, que muito cresceram sob o impulso de acontecimentos de grande impacto global (11 de Setembro, atentados em Madrid e Londres, invasão do Iraque, furacão Katrina, etc.), ao nascimento e afirmação do bloguismo, do jornalismo participativo e o dos cidadãos, Allan, professor de media e jornalismo na universidade West of England, Bristol, percorre a história recente e ajuda-nos a cimentar o conhecimento nesta área. Leitura recomendada, portanto.


Outras leituras:
Nós, os Media, de Dan Gillmor
Online Journalism: A Critical Primer, de Jim Hall
Digital Journalism: Emerging Media and Changing Horizons of Journalism, de Kevin Kawamoto (ed.)
Web Journalism: Practice and Promise of a New Medium, de James Glen Stovall

28.9.06

Online Awards: o meu voto

É já na próxima semana que saberemos quais os vencedores da edição deste ano dos Online Journalism Awards. A categoria Outstandig Use of Multiple Media é das mais interessantes e tem apenas quatro finalistas.

O meu voto, se eu votasse, ia direitinho para a reportagem multimédia Rising from Ruin, do MSNBC, sobre a devastação deixada em Nova Orleães pelo Katrina. Uma reportagem capaz de nos dar uma volta de 360 graus à cabeça. Literalmente.


A ler:
MSNBC.com: multimédia a sério

25.9.06

Chostakovitch 'não passa' em TV

Se os nossos canais de televisão não estivessem tão embrutecidos como, de facto, estão, seria de esperar que hoje, dia em que se assinala um século sobre o nascimento do compositor russo Dmitri Chostakovitch, considerado um dos maiores compositores do século XX, exibissem algum programa, filme ou concerto a propósito.

A RTP, por exemplo, lá nas catacumbas dos arquivos, ainda deve ter a cópia de um filme, realizado por Tony Palmer, sobre a vida de Chostakovitch. No papel principal, temos um muito convincente e profissional Ben Kingsley.

O canal estatal passou esta fita, cujo título original é Testimony, há muitos anos. Ficaram-me boas recordações e uma grande vontade de descobrir a música de Chostakovitch. Não seria a noite de hoje excelente altura para uma reposição?

Qual quê... Temos, depois da meia-noite, E-Ring Centro de Comando, na RTP1, e a história de um elefante, na 2:. Nas privadas, nem vale a pena falar. As noites estão entregues à bicharada.

Ontem, no Público, um bom trabalho sobre a efeméride. Hoje de tarde, na Antena 2, o destaque devido, e conhecedor, a Dmitri Chostakovitch.

19.9.06

Expresso: notícias mais pequenas

O caderno principal do Expresso "grande" já não tinha muito que valesse realmente a pena ler. A versão "redux" do mesmo caderno parece ir pelo mesmo caminho, com a agravante da página minguada. O texto jornalístico está mais pequeno e mais bem arrumado. Só os anúncios parecem ter mantido o tamanho de antigamente.

Há qualquer coisa de muito errado quando chegamos ao fim de folhear os (apesar de tudo) melhores jornais portugueses e ficamos com a sensação de que eles nos dão tudo menos notícias. Notícias no verdadeiro sentido. Ou num daqueles sentidos que vem no dicionário: «aquilo que se ouve pela primeira vez».

16.9.06

Sol e sombra

Muito provavelmente, o Expresso e o Sol esgotaram hoje nos quiosques pelas razões erradas.

O primeiro, por causa do DVD de borla. Borla, em tempo de crise, é mel para os ouvidos de portugueses sobreendividados. Basta ter. Não é preciso ler.

O segundo, pela novidade. Estou ainda para vê-la no papel, pois, no Porto, o Sol desapareceu todo de manhã.

Na Web, no entanto, o Sol é o que se esperava e temia: pouco mais que uma montra do produto original. Lá temos uns blogues e uns fóruns para animar a coisa e pouco mais. A versão online nem sequer ficha técnica própria tem. Está tudo dito. É muito franciscano, este novo ciberjornal.

Se, como tudo indica, o grosso do Sol de papel for o que está despejado online, também não aquece nem arrefece em termos jornalísticos. O tom, os temas, o estilo, têm a marca indelével das décadas que António José Saraiva passou à frente do Expresso.

Posto isto, vamos dar tempo aos dois semanários agora concorrentes para ver se puxam um pelo outro nas coisas certas. Como na investigação a sério, por exemplo.


Outras leituras:
À sombrinha - primeiras notas, de Luís Santos

13.9.06

A face dos caídos

Bagdad está hoje a ferro e fogo. 60 corpos foram encontrados com sinais de tortura e quase 30 pessoas morreram num ataque contra a polícia. Para a generalidade dos ciberjornais portugueses, isto não está a ser notícia até agora (meio da tarde). Mas no Le Monde.fr, no New York Times ou no washingtonpost.com está.

No Post, vale a pena espreitar o trabalho Faces of the Fallen sobre todos os soldados norte-americanos mortos até agora no Afeganistão e no Iraque. São 2984. O jornal criou um registo com dados relativos a cada um deles.

Aviso: conteúdo verdadeiramente indigesto para neocons.

12.9.06

'Geração blogue' em livro

Foi publicado há pouco tempo por cá, pela Editorial Presença. O título escolhido, Geração Blogue, não é brilhante, mas Giuseppe Granieri parece agarrar no tema de uma maneira interessante. Pelo menos, é a impressão com que se fica depois de uma primeira e rápida vista de olhos.

Para já, aqui fica a sinopse:

«Apesar de ser um fenómeno relativamente recente, em poucos anos os blogues conheceram uma difusão extremamente célere na Rede, impondo-se como um novo modelo de comunicação que põe diariamente em contacto e em confronto pessoas e ideias, transformando a Internet numa imensa infra-estrutura de discussão, e criando uma comunidade cuja única regra é a relação. Partindo destas características, Giuseppe Granieri procura responder a questões que relacionam os blogues, a informação, os media, a política e a democracia, e as regras que gerem e filtram todo este enorme ecossistema. Sustentado por exemplos concretos e actuais, este é um livro indispensável para compreender e acompanhar a revolução que os blogues estão a operar, em tempo real, no nosso quotidiano e que desafia a nossa visão do papel das novas tecnologias na sociedade num futuro não muito distante.»

11.9.06

Perfil do jornalista nos EUA

Algo tem mudado no perfil do jornalista norte-americano ao longo das últimas décadas. Hoje, ele é:

* mais velho do que era há uma década (média actual de 41 anos)
* mais bem formado a nível universitário
* menos inclinado a ser democrata (no sentido usado nos EUA)
* mais bem compensado do que era há dez anos, mas com menor poder de compra


A ler:
The Face and Mind of the American Journalist

5.9.06

Colunistas ao Sol

Marcelo Rebelo de Sousa, Paulo Portas, Miguel Portas, Margarida Marante, Margarida Rebelo Pinto... o Sol parece déjà vu ainda antes de ter nascido. O povo, do Estoril a Cascais, vai adorar.


3.9.06

MSNBC.com: multimédia a sério

E que tal dar uma volta pelas ruas devastadas de Nova Orleães na Web como se estivesse com uma câmara de vídeo nas mãos a filmar a 360 graus? É isso que o site MSNBC.com permite em Rising from Ruin, um trabalho magnífico de exploração das potencialidades multimédia ao serviço da reportagem.

No fundo, é a concretização de uma possibilidade de que, por exemplo, John Pavlik, um autor de referência nesta área, fala há muitos anos (e nem sempre é levado a sério...): a utilização do vídeo a 360 graus como forma de envolver o leitor na narrativa. Neste caso, o leitor pode escolher, para além do ângulo de filmagem, os locais que prefere ver. Basta clicar num mapa.

Rising from Ruins tem também muito material de arquivo e contexto. Além disso, disponibiliza estórias contadas, através de slide shows de áudio, por cidadãos que sofreram na pele o Katrina e fornece 'diários dos cidadãos', uma espécie de blogue em que os residentes de Bay St. Louis e de Waveland contam o que lhes vai na alma.

(dica de Steve Outing)

2.9.06

Palmas e Bordoadas: no Expresso

Bordoada na foto de Pinto Balsemão a rasgar a capa do Expresso de hoje. De vez em quando, aos jornais foge-lhes o pé para o aumento do volume da voz do dono. O excesso de reverência vê-se nesta imagem como se tem visto na multiplicação de páginas no JN ou do DN, por exemplo, sempre que o patrão aparece na festinha de aniversário a dar uma de social com "figuras" convidadas. Não há necessidade. Resvala para o provincianismo. E os donos da loja deviam ser os primeiros a perceber isto.

1.9.06

O fim do dependente

O Independente teve o seu tempo. Morreu hoje, afogado em dívidas, processos em tribunal e poucos leitores. Poucos jornais contradisseram tanto na prática o seu próprio título.

Este semanário teve alguma piada no início. Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso introduziram um estilo nunca dantes visto na imprensa portuguesa, que, em 1988, ainda não contava com o Público. Casaram humor com notícias incisivas e manchetes "assassinas". Cavaco Silva que o diga, a par de ministros como Leonor Beleza, Braga de Macedo, João de Deus Pinheiro, Miguel Cadilhe ou Sousa Franco, entre muitos outros.

Depois, a frescura inicial começou a pender para a bandalheira jornalística. Portas disfarçava cada vez menos a utilização do jornal como (sua) mera rampa de lançamento para a refundação da direita portuguesa ou lá o que isso seja. Se tivesse ficado no Independente, teria sido óptimo para o jornal e ainda melhor para a salubridade do panorama político nacional. Mas não. E lá foi ele traulitar a sua cartilha para a política, arruinando o CDS para lhe colar as suas próprias iniciais. Deu no que deu.

O jornal que deixara entretanto para trás nunca mais se recompôs. Transformado num megafone de uma certa direita rendida ao altar dos negócios, foi atropelando tudo quanto era um mínimo de bom senso e respeito por regras deontológicas. Por exemplo, ficou célebre a transcrição, elevada a manchete, de uma conversa privada que Sousa Franco tivera à mesa de um restaurante.

A partir de certa altura, o jornal tornou-se pura e simplesmente intragável e ilegível. Foi, portanto, O Independente a cavar a sua própria sepultura.

29.8.06

Castells e a 'Mass Self Communication'

Já li e recomendo vivamente o texto A era da intercomunicação, publicado na edição brasileira do Le Monde Diplomatique. O autor é o conhecido professor de comunicação Manuel Castells.

Neste texto, Castells desenvolve o conceito de Mass Self Communication (a intercomunicação individual) e considera-o «uma nova forma de comunicação em massa - porém produzida, recebida e experienciada individualmente».

Tecnicamente, a Mass Self Communication «está presente na internet e também no desenvolvimento dos telefones celulares.»

(dica de Daniela Bertocchi)

28.8.06

Capa para recordar

Como o tempo passa... já lá vão mais de onze anos. Em Março de 1995, a revista Time fazia uma edição especial sobre um assunto estranhíssimo: o ciberespaço.

No topo da capa escrevia simplesmente: "Welcome to cyberspace". Daqui a cento e onze anos, será um clássico para coleccionadores.

22.8.06

A ler: "Online News"

Não é todos os dias que são publicados livros sobre ciberjornalismo que não se limitem a ser manuais do tipo "como escrever notícias na Internet". Disso, há aos montes.

Não parece ser esse o caso de Online News: Journalism and the Internet, da autoria de Stuart Allen, da University of West of England, Bristol. O livro acaba de ser publicado pela mão da Open University Press. O índice pode ser lido no blogue Online Journalism.

21.8.06

Notícias, salsichas e computadores

Sejamos francos: para boa parte dos patrões dos media, a verdadeira diferença entre uma grande notícia e uma boa salsicha é meramente residual. Por isso, para eles, esta será uma grande e promissora notícia:

«Primeiro foi a máquina de escrever, depois o fax, agora o serviço de noticioso dos Estados Unidos da América (EUA) encontrou uma maneira substituir os jornalistas nas redacções e está já a utilizar computadores que escrevem algumas das suas notícias.

A Reuters e a Bloomberg, líderes mundiais de informação, são os principais alvos da Thomson, que desde Março deste ano têm vários computadores a redigirem artigos de diferentes temas editoriais de forma satisfatória. Um resultado que faz antever a expansão desta prática. Os computadores trabalham de forma tão rápida que em apenas três segundos concluem o artigo que têm “em mãos”, permitindo à empresa ter uma eficácia puramente excepcional.» (Diário Económico)

Mário Crespo: jornalistas não questionam

Em geral, os jornalistas portugueses têm um sentido de autocrítica muito pouco apurado. Publicamente falando, ainda pior. Saúde-se, por isso, a clareza com que Mário Crespo responde ao JN a perguntas como estas:

«O jornalismo perdeu e quem ganhou foi a assessoria?

O jornalismo converteu-se numa indústria, está cada vez mais definido pelos custos e benefícios. É mais barato fazer uma primeira página com uma bela fotografia do que com uma prosa de investigação. Essas opções são conscientes. E o grave é que isso acontece na estação privada, e ela tem todo o direito, e na pública. Também o sector público opta pelo "tabloidismo". Há um sacrifício do conteúdo à forma. Não se investe em investigação.»

«Os jornalistas questionam pouco?

Não questionam, simplesmente. São capazes de pôr uma fotografia excelente e escrever afinal era "material bélico não letal". »


Eis uma entrevista substancial e oportuna a ler em plena "época tonta".

17.8.06

TV Cabo raso

A TV Cabo está cada vez mais pimba, vergada ao popularucho mais asqueroso, com laivos de esoterismo de pechisbeque. Agora dá antena, ou melhor, cabo, a todo o tipo de vendedores da banha da cobra.

A machadada mais recente foi acabar com o canal GNT, que ainda conservava alguma decência na programação, e substituí-lo por uns apresentadores aprumadinhos de risca ao meio, que só de ver assusta.

Kama Sutra, tarot, cartomancia, misticismo, tudo o que esteja bem longe da razão, é o que está a dar. É sabido que, como dizia outro, Deus morreu e Marx também. Mas convém não exagerar.

Um zapping noctívago pelos canais da TV Cabo é uma experiência deprimente. Não dá nada de jeito. Salva-se um ou outro canal, com a BBC World e o Mezzo à cabeça. E lá se foi, há muito, esse bom luxo de minorias que era o Arte. O dinheiro, como se sabe, não vai com a cara das minorias. E era nisto que Pacheco Pereira devia pensar um pouco antes de defender a ideia absurda de privatizar tudo quanto é canal em Portugal.

Pouco há a esperar. A lógica das audiências lucrativas é implacável. Telespectador é mero número burro para fazer monte. Portanto, o mínimo agora é fazer como o Jesualdo e mudar de clube. Ou então sair para o terraço e contemplar as estrelas de Agosto.

16.8.06

"Slow journalism" II

O experiente jornalista Seymor Hersh, da revista norte-americana The New Yorker, descobriu que Washington e Telavive "cozinharam" uma guerra no Líbano «muito antes» do início do conflito, há um mês, a pretexto do rapto de dois soldados israelitas pelo Hezbollah.

E agora pergunta-se: está este nível de "cachas" ao alcance do tal "fast journalism" - alimentado a doses cavalares de mão-de-obra inexperiente, barata e mal contratada - que esmaga hoje as redacções um pouco por todo o mundo?


A ler:
Israel planeou guerra no Líbano antes do rapto dos seus soldados (Público)

9.8.06

Em defesa do "slow journalism"

Já é bem conhecido o movimento internacional "slow food", que defende a boa comida tradicional contra a avassaladora "fast food" de plástico e gorduras em excesso. Comer não é apenas deglutir apressadamente. É também um ritual de degustação e prazer. E assim é que está certo. Viva a "comida lenta", portanto.

Depois de ler uma notícia que vem hoje no Público, acerca de dois jornalistas de investigação veteranos - conhecidos por publicarem pouco mais de duas grandes estórias por ano, algumas galardoadas com o prémio Pulitzer - dispensados pela revista norte-americana Time, fico com vontade de subscrever um abaixo-assinado a favor da criação do movimento "slow journalism".

"Slow jornalism": jornalismo com o tempo que for preciso para investigar a sério uma boa estória. Jornalistas com gosto pela degustação do rigor, do pormenor, da profundidade, da persistência, da descoberta daquilo que outros querem esconder do (bem) público. Jornalismo de "chefes de mesa" com a espinha no sítio para aguentar a pressão do piri-piri das manchetes. Jornalismo nos antípodas do "fast journalism" que por aí abunda, gordo mórbido de notícias requentadas, de press-releases encapotados e de fretes consumados.

4.8.06

Somos todos jornalistas?

Duas observações interessantes a reter do artigo Todos Somos Periodistas, disponível no EL PAIS.es:

Dan Gillmor, autor de Nós, os Media, considera que a imprensa tradicional vai continuar a ser necessária. Os bloguistas, diz, não querem (nem devem querer, diria eu) substituir os jornalistas. «O que acontece é que todos temos histórias para contar. E é inerente ao ser humano querer fazê-lo. Mas os jornalistas deveriam celebrar a participação dos cidadãos na criação de notícias e preocupar-se mais com o futuro da publicidade, já que vivem dos anunciantes e são estes os que realmente lhes podem causar danos procurando audiências em novas plataformas».

Nicholas Lemann, decano da Faculdade de Jornalismo da Columbia University, diz que que o jornalismo de cidadão ainda está longe de ser autêntico jornalismo, mas, potencialmente, «a Internet é o melhor meio que foi inventado para a reportagem».

A ler:
Todos somos periodistas
Amateur Hour. Journalism without journalists

31.7.06

Fragilidades dos jornais II

Se dúvidas houvesse sobre o estado de indigência editorial e financeira dos principais jornais portugueses, bastaria olhar para a quase total ausência de reportagem própria feita no sul do Líbano e no norte de Israel, onde o mundo tem, por estes dias, os olhos postos. Pelas piores razões.

29.7.06

Fragilidades dos jornais

A imprensa portuguesa está a passar um mau bocado? Está. Em parte, por culpa própria. Num texto publicado hoje, no Expresso, J.-M. Nobre Correia aponta alguns erros persistentes. A saber:

- Os diários vivem voltados para a Grande Lisboa e o Grande Porto, negligenciando o resto do país.

- As edições regionais, «no sentido forte da palavra, não existem, quando proliferam no resto da Europa».

- O «colunismo» é omnipresente. Proliferam os colunistas que «escrevem sobre tudo e sobre nada, a maior parte das vezes sem a mínima competência específica, por vezes até sem a mínima virtuosidade de escrita», ainda por cima «pagos a peso de oiro». Não posso estar mais de acordo com esta crítica.

- Política de títulos «mais ou menos estrondosa».

- Linha editorial incoerente, em particular nos jornais de «referência».

- Deficiente gestão da distribuição dos exemplares.


Estes e outros problemas, focados no texto Superar a fragilidade, levam Nobre-Correia a considerar que é «toda a concepção editorial e económica dos diários portugueses que tem de ser reequacionada».

Certo. Resta saber se existe nos jornais a força de vontade e massa cinzenta suficientes para a reequação.

26.7.06

Notícias gratuitas

João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, defende que «a fórmula que assegura o êxito dos gratuitos - notícias curtas, concisas e arrumadas num formato limpo e disponível em vários pontos de passagem do público - devia servir de bússola à imprensa em geral numa altura em que muito se fala da crise no sector ao nível nacional, europeu e até mundial.» (DN).

Se pensarmos exclusivamente em termos de vendas (e os jornais portugueses bem delas precisam), a ideia faz algum sentido. Ainda para mais quando a maior parte dos jornais serve, de facto, apenas para vender papel e fazer fretes políticos, económicos ou sociais. Portanto, é mais parágrafo, menos parágrafo.

Agora, aplicar a fórmula aos poucos jornais de referência, isto é, os que ainda têm alguma coisa para ler escrita em português, seria um suicídio. Para os próprios diários (imagine-se ler um Público inspirado no Metro ou um DN a aplicar as concisas do Destak...) e para os poucos cidadãos que ainda procuram no papel algo mais que a futilidade informativa das rádios e televisões do dia anterior.

20.7.06

Palmas e Bordoadas: Visão

Palmas para o trabalho "O País Derrapado", de Alexandra Correia, na Visão. O tema não é novo, mas os números e as situações apresentadas (do Parque Mayer ao estádio do Algarve) são muito pertinentes:

«Incompetências, desleixos, negócios obscuros, megalomanias e o gosto pela ostentação são uma mistura explosiva na gestão dos dinheiros públicos. Retrato de um Portugal do desperdício, onde milhões voam e (quase) ninguém paga por isso.»

19.7.06

A vez do New York Times

Nem os grandes, nem os pequenos, nem mesmo os maiores do mundo. Nenhum jornal parece estar a salvo de reduções de custos, diminuição de tamanho, cortes no pessoal.

O New York Times anunciou, ontem, que vai reduzir o formato e acabar com 250 postos de trabalho, que equivalem a cerca de um terço da sua equipa de produção.

Como refere o Diário Económico, o Times justifica a decisão afirmando que «muitos outros diários de referência também reduziram, recentemente, o seu formato. E acrescenta que outros, nomeadamente o “Wall Street Journal”, planeiam mais cortes para reduzir os crescentes custos do papel e impressão, numa altura em que os diários estão a perder leitores e anunciantes a favor da internet.»

É nesta última frase que devemos concentrar a nossa atenção.


A ler:
La dama gris, en minifalda


12.7.06

Jornais: fusão e reacção

Eis duas tendências a acompanhar de perto, pois estão a alterar a paisagem dos jornais e ciberjornais: a fusão de redacções (veja-se os casos recentes do Boston Globe, New York Times e Financial Times) e a reacção, sobretudo por parte dos diários, à ameaça concreta dos jornais gratuitos. Esta ameaça parece hoje ser bem mais séria do que seria de supor.


A ler:
El éxito de los gratuitos hace más visible la crisis de la prensa diaria de pago

11.7.06

Terramoto nos diários dos EUA

A vida dos jornais norte-americanos, em particular os diários, não está fácil. Como nos conta Howard Kurtz, crítico de media do Washington Post, os media não param de multiplicar-se. Mas, ao mesmo tempo, o trabalho de investigação reduz-se «a olhos vistos».

Kurtz cita um estudo do Project for Excellence in Journalism em que os autores falam num «verdadeiro terramoto» na paisagem mediática dos EUA. Porque, «quem diz menos jornalistas, designadamente nos diários, diz menos investigação sobre o mundo político e sobre as empresas». Semelhanças com os diários portugueses?

De acordo com o mesmo estudo, «o mais ameaçado é o diário de grande difusão, que acabara por se impor em finais do século XX. Mesmo que não morram, os jornais e outros media vão perder terreno, o que parece traduzir-se numa diminuição dos meios consagrados à investigação da informação.» (Courrier Internacional).

Como bem lembra Kurtz, a questão é esta: o jornalismo de investigação sai caro e, por conseguinte, a quebra da circulação e as reduções de pessoal entre os jornalistas não auguram nada de bom, e não apenas para os gigantes dos media.

Se na pátria dos melhores jornais do mundo a coisa está assim...

9.7.06

Responsabilizar jornalistas

Num artigo publicado hoje, no Público, António Marinho, jornalista e advogado, aponta factores que minam por dentro o jornalismo português.

Tem inteira razão quando escreve que «não há um órgão de jornalistas que proceda a uma efectiva responsabilização dos que violam a ética profissinal» e quando defende a «criação de um órgão exclusivamente composto por jornalistas vocacionado para a defesa da liberdade de informação e para uma efectiva responsabilização ético-deontológica dos jornalistas portugueses.»

Enquanto isto não acontecer, a impunidade, a degradação profissional e o triunfo dos medíocres continuarão a crescer como ervas daninhas.

8.7.06

De leituras: blogues e jornalismo

«Apesar de considerar os weblogs uma componente vital de uma saudável dieta de media, no final, weblogs e jornalismo são simplesmente coisas diferentes. O que os weblogs fazem é impossível de ser reproduzido pelo jornalismo tradicional, e o que o jornalismo faz é impraticável fazer num weblog.»

Rebecca Blood, The Weblog Handbook

7.7.06

Público em crise

O Público, segundo o DN de hoje, está «num processo de reestruturação profunda que envolve mudanças gráficas, de conteúdos - com a fusão dos suplementos Y e Mil Folhas - e na redacção.»

Ainda segundo o diário da Global Notícias, José Manuel Fernandes escreveu uma carta a todos os colaboradores do jornal em que diz que o Público «atravessa um momento crítico» porque perdeu circulação e publicidade.

O Público «perdeu 4391 leitores no primeiro trimestre do ano relativamente ao período homólogo de 2005, com as vendas do jornal a situar-se nos 44 783 exemplares e os prejuízos nos 2,2 milhões de euros.»

O panorama daquele que é, apesar de tudo, o melhor diário português não é nada brilhante. E isso tem-se reflectido sobremaneira na qualidade do jornal que lemos todos os dias: o Público tem hoje menos "rasgo" e imaginação, é muito mais previsível do que era há uns anos, investiga muito pouco para o tipo de jornal que é, o peso dos acontecimentos de agenda aumentou consideravelmente, o caderno local do Porto está pelas ruas da amargura e até a fotografia e a infografia, outrora pujantes, se encontram em declínio.

Algumas mudanças recentes foram no bom sentido. A edição de domingo melhorou em termos de profundidade e a revista de economia aproximou-se, bem, dos bolsos do cidadão comum.

Mas, a par disso, foram tomadas decisões muito discutíveis, como a de acabar com o suplemento Computadores. Não devia ter acabado. Devia, antes, ter sido reforçado.

O país não ganha nada em ter uma imprensa diária de referência (a saúde financeira e jornalística do DN também está no estado em que está) no fio da navalha. O jornalismo, cujos constrangimentos são cada vez mais fortes, também não.

Esperemos que, nos próximos tempos, Belmiro de Azevedo alargue as suas vistas.


A ler:
José Manuel Fernandes quer "refundar" jornal

Travessias na memória:
Perda de Público
A Web social no Público

4.7.06

Expresso online de papel

O novo sítio do Expresso, anunciado com pompa pelo próprio jornal, não passa de uma operação de recauchutagem. A não ser o embrulho, pouco mudou. E pouco entusiasma.

Design algo deslavado. Predominância de texto. Pouca imagem. Uma secção de Multimédia quase toda à base de "slideshows" com som. "Serviço de notícias" da SIC, no que parece ser uma sinergia pouco convincente. Blogues com sabor a pouco (embora o da Direcção seja uma ideia interessante). Os fóruns, o podcasting, etc. já lá estavam.

Em suma, continua a haver demasiado Expresso de papel nesta versão digital. Ao fim de oito anos na Web, o Expresso Online ainda não tem alma própria.


Travessias na memória:
Expresso podcasting
Expresso multimédia
Expresso Online mexe

30.6.06

Expresso Online renovado

O Expresso vai lançar amanhã o seu novo sítio. Promete «grafismo renovado e navegação facilitada» e aposta «nos conteúdos multimédia, na interactividade com os leitores e, acima de tudo, na qualidade da informação». Cá estaremos para ver.

Hoje, o Expresso Online faz uma pequena antecipação das mudanças.

29.6.06

Jornais em "descida na continuidade"

A imprensa revela hoje números que indicam que as vendas dos jornais estão a cair enquanto a circulação dos jornais gratuitos não pára de subir.

Que estão os principais jornais portugueses a fazer, em particular ao nível dos conteúdos noticiosos, para contrariar esta tendência? Rigorosamente nada. Ou melhor, estão a apostar na "evolução na continuidade". Sinónimo de "descida na continuidade".

Diário Económico renova visual

O Diário Económico renovou a sua versão online. Em termos visuais, o DiarioEconomico.com não fez uma mudança radical. Mas está mais bem arrumado, mas agradável à vista e mais fácil de ler.

Ainda assim, não há qualquer material multimédia. As fotos escasseiam. Sobram gráficos cheios de números pequeninos, tipo sobe-e-desce da bolsa.

Em parâmetros como o hipertexto ou a interactividade, o DiarioEconomico.com também chumba no exame.

Opções interessantes: a versão impressa pode ser descarregada na íntegra em formato PDF; o calendário para consultar edições anteriores.

28.6.06

Monde multimédia

O Monde.fr dá hoje um pequeno exemplo do encontro entre um tema do dia - a entrada do exército israelita na Faixa de Gaza - e a Web.

Um excerto de vídeo é acompanhado de um pequeno texto de três parágrafos. Em rodapé, quatro opções "interactivas" para o leitor. Ainda na mesma página, material de contexto: notícias desenvolvidas, com fotos, dossiês, infografias e debate.

Multimedialidade, hipertextualidade e interactividade tornadas simples. Nada mau.

A ver:
Incursion israélienne dans la bande de Gaza

26.6.06

Ciberjornais: siga o dinheiro

Os principais jornais britânicos estão a reforçar a sua aposta nas edições online. Porquê? Porque perceberam que o dinheiro da publicidade começa, cada vez mais, a cair nos cofres do ciberespaço. E porque o mercado é outro, os jornais são grandes e a concorrência é para levar a sério.

O DN faz hoje referência a um relatório da agência britânica GroupM, responsável por cerca de 30 por cento das compras de espaço publicitário em diversos media no Reino Unido, segundo o qual, pela primeira vez, no final de 2006, os gastos com publicidade na Internet vão «ultrapassar o orçamento despendido nos jornais nacionais.»

Para se perceber a tendência e o que aí vem para os ciberjornais, basta fazer como diz o outro: «follow the money!»


A ler:
Jornais britânicos apostam no digital

Jornais reduzem dependência do papel

Palmas e Bordoadas

É absolutamente lamentável que um jornal de referência como o Público não tenha, nesta altura de pico de crise política, um repórter em Timor-Leste. Adelino Gomes ainda devia lá estar. Por razões que saltam à vista.

22.6.06

Travessias

No Travessias, o meu blogue generalista, tenho escrito sobre música (Sakamoto, Antony, Sonny Rollins), deputados em época tonta (vulgo, silly season), estrangeirismos, cinema, pintura, o Iraque. As leituras, essas, têm-se dividido entre livros sobre ciberjornalismo, a prosa erudita de George Steiner e as ideias perenes de Séneca.

21.6.06

Boston Globe funde redacções

O jornal Boston Globe decidiu juntar as redacções tradicional e digital (a do Boston.com), que até aqui funcionavam cada uma para seu lado. Objectivo: maximizar as sinergias.

O funcionamento de ambas as redacções será coordenado por um editor geral. Será Martin Baron a decidir como serão editadas e apresentadas as notícias nas edições em papel e online.

O publisher Richard Gilman explica assim a decisão: "estamos numa nova fase de elevada competição contra fornecedores massivos de informação. Estamos a experimentar uma mais profunda interdependência entre imprensa, online e comunicações móveis. E lutamos diariamente para satisfazer complexas exigências das audiências. Para florescermos neste novo ambiente, precisamos de ter uma abordagem mais integrada.»

Eis, pois, uma opção que faz todo o sentido.

(dica de António Granado)

A ler:
Boston Globe Announces Integration of Boston.com Website

20.6.06

Vídeo no Washington Post

A dica é da Mindy McAdams: jornalistas do Washington Post estão a receber câmaras de vídeo digitais para reportarem em formato multimédia. Os responsáveis do jornal esperam que os repórteres da casa entrevistem, filmem e escrevam.

E repare-se que não estamos a falar de ciberjornalistas, mas sim de jornalistas "tradicionais", da versão de papel, para quem o ofício se resume (resumia?...) a escrever e mais nada.

Estas, e outras, fazem-me lembrar uma canção do Bob Dylan, escrita há mais de 40 anos, que diz assim:

Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'

16.6.06

Top de popularidade na BBC

Um clique sobre o mapa da América do Sul: a notícia mais lida é sobre a popularidade de Tom Cruise. Clique sobre o mapa da Europa: a notícia número um refere-se a um ataque bombista (mais um...) numa mesquita em Bagdade.

O "BBC News Most Popular Now" é um gráfico, em Flash, que permite medir, em tempo real, quais as notícias mais lidas nos diversos cantos do mundo e ainda quais as que são mais reenviadas por email de uns cibernautas para outros.

A página é, como se diz em linguagem popular, bem sacada. E prova à saciedade como, juntando boas ideias às enormes potencialidade narrativas da Web, se podem fazer coisas fantásticas. Ainda por cima, sem se gastar grandes fortunas.

15.6.06

Febre Web 2.0

«É a febre Web 2.0, mais simplesmente, a Internet plural ou a Rede social. Identifica-se, fundamentalmente, com a facilidade para que o internauta seja algo mais que um passivo leitor de páginas. Na Rede social, o público actua, fabrica os seus conteúdos. Com a mesma facilidade com que dantes enviava um e-mail, agora publica os seus vídeos. Também começa a consumir à medida. Adquire o software de que necessita ou desenha o seu livro, o seu disco, a sua rádio ou a sua televisão. É a segunda revolução da Internet.»

Javier Martín, no CiberP@is

11.6.06

Tengarrinha e a concentração dos media

«A concentração (dos media em grandes grupos) não permite a suficiente concorrência e uma suficiente libertação das ideias, causa condicionamentos cada vez maiores. Isto é um aspecto fundamental da sociedade dos nossos dias que exige uma reflexão aprofundada e medidas urgentes. São factores que estão a exercer uma corrosão e a adulterar o fundamento democrático da sociedade. Ou nós temos condições corajosamente para enfrentar estes problemas ou a sociedade democrática, conservando a sua fachada, no fundo é cada vez menos democrática.»

José Tengarrinha, em entrevista ao DN.

9.6.06

Notícias online primeiro

O diário britânico The Guardian, cuja versão online tem dado cartas e acumulado prémios, prepara-se para apostar numa interessante política de "notícias online primeiro".

Isto significa que as principais estórias de correspondentes estrangeiros e de jornalistas de economia serão publicadas na edição Web antes de isso acontecer no papel.

A ideia é dar aos repórteres a oportunidade de produzirem notícias com maior fôlego e sem as limitações do jornal tradicional. No entanto, algumas estórias exclusivas serão guardadas para a versão de papel de forma a proteger o valor desta. O que se entende: há que acautelar, para utilizar uma expressão negroponteana, a "canibalização" dos átomos pelos bits.

A ler:
Guardian to file online first...

7.6.06

Jornais e portais noticiosos

No 59º Congresso da Associação Mundial de Jornais, que termina hoje, em Moscovo, uma das discussões andou à volta de saber se os portais da Web são uma nova ameaça aos jornais.

O debate parece não ter sido conclusivo. A imprensa tradicional sente-se ameaçada e, de certa forma, posta em causa. Mas os responsáveis pelo Yahoo News ou o Google News dizem que não há razões para os "velhos" jornais se preocuparem. Confiam numa "relação de simbiose" entre ambas as partes.

O problema é que a imprensa tradicional tem mesmo boas razões para se preocupar. As empresas donas de portais como o Yahoo News e o Google News são jovens, atentas, super-dinâmicas, arrojadas, inventivas, flexíveis, motivadas, competitivas. Ou seja, são quase tudo aquilo que muitos jornais, definitivamente, não são. Ou deixaram de ser.

A ler:
Portais e imprensa, amigos ou inimigos?
Circulação e publicidade dos jornais regista subida

2.6.06

75 mil blogues por dia

Quando se fala de Internet, o futuro começou ontem. Por isso, qualquer exercício de prospectiva é sempre muito arriscado. Não obstante, torna-se cada vez mais difícil acreditar que os blogues são, como crêem alguns, mera moda passageira.

A cada segundo que passa, nasce um blogue. Por dia, nascem 75 mil. A cada seis meses, a população da blogosfera duplica. Em três anos, essa mesma população aumentou 60 vezes.

Foi precisamente há três anos que David Sifry fundou o Technorati, um motor de busca só para blogues. Em entrevista ao CiberP@is, diz que se considera a si próprio «o editor do século XXI».

1.6.06

O armário do jornalismo III

Ainda a propósito da "trovoada Carrilho", o jornalista Luís Costa escreve hoje, correcta e certeiramente, no Público:

«O problema é que a generalidade das redacções (num movimento contrário ao ciclo profissionalizante das mais poderosas fontes de informação) deixou de garantir a preservação do papel essencial do jornalista, porque isso só se consegue com recursos humanos qualificados e em número suficiente, com gente motivada e boas condições de trabalho, com chefias, editores e directores de indiscutível mérito e experiência acumulada, com gente capaz de impor critérios editoriais aos ditames do marketing e das relações públicas, com estruturas intermédias fortes e actuantes, com um sector de agenda atento, determinante e valorizado, com administrações que saibam conciliar o compreensível desejo de lucro com a especificidade de uma área de negócio que não vende um produto qualquer.»

Permito-me acrescentar que, hoje, bastaria olhar para o perfil das administrações dos principais grupos de comunicação social em Portugal para se ficar com um elevado grau de certeza de que tudo isto tem um caminho garantido: o da deterioração.

29.5.06

O armário do jornalismo II

O Público e o Diário de Notícias dão hoje, nas suas páginas de Media, dois bons contributos para o esclarecimento das relações entre agências de comunicação e jornalistas:

Agências tentam, mas jornalistas é que decidem
Jornalistas e agências de comunicação: O namoro conflituoso (Público)

24.5.06

O armário do jornalismo

A trovoada provocada pela publicação do livro de Maria Carrilho tem vários méritos. Um deles é o de permitir uma confirmação: o jornalismo tem, há muito tempo, montes de esqueletos escondidos no armário.

Alguns não são novidade alguma para quem conhece o meio por dentro (ligações pouco claras entre jornalistas, agências de comunicação, autarquias, partidos e clubes de futebol, "notícias" compradas, "prendas" dadas e recebidas, impunidade total no corrupio jornalismo-assessorias, comissários políticos colocados nas redacções, auto-censura, fretes invertebrados aos diversos tipos de poder (do governamental ao autárquico, passando pelo financeiro), incluindo por parte de administrações dos media, jornalistas transformados em mão-de-obra precária, pé-de-microfone, empacotadores de 'takes' da Lusa, fretistas voluntários ou à força, etc, etc..)

Os problemas mais graves, pouco debatidos abertamente pela classe e ainda menos escrutinados por quem quer que seja, estão, há muito, identificados. O maior problema, no entanto, continua a ser apenas este: o jornalismo ainda não descobriu um antídoto eficaz para eles.

E também não parece que isso vá acontecer tão cedo. Por uma razão simples: a profissão não está dotada, interna e externamente, de mecanismos eficazes de vigilância e punição das violações mais grosseiras dos princípios éticos e deontológicos. Foi de impunidade em impunidade que os esqueletos se amontoaram. De vez em quanto, lá aparece um Carrilho para abrir a porta do armário.


A ler:
Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses

22.5.06

De olhares: Mitterrand e o jornalista

É um passeio pela história pessoal e política de François Mitterrand, mas é também a história de um jovem jornalista confrontado com a tarefa esmagadora de escrever as memórias daquele que foi uma das maiores figuras da história da França do século XX.

Donde, Uma Viagem pela história, realizado por Robert Guédiguian, pode ser visto através de dois ângulos, ambos estimulantes: o político e o jornalístico.

De Mitterrand, o essencial é mostrado ou sugerido ao longo do filme: o passado político rico e nebuloso, a filha "clandestina", a personalidade forte e culta, a luta política feroz, incluindo com a sua própria família política, etc..

Já o jovem jornalista, empregado numa revista, é uma personagem hesitante, assustada e indecisa perante a figura do presidente da República. A tarefa de o biografar absorve-o de tal modo que acaba por se divorciar. Oscila entre o deslumbramento pela figura de Mitterrand e o imperativo profissional de o confrontar com a "verdade", sobretudo em relação ao passado de alegadas ligações ao regime de Vichy.

O filme, ao contrário do que se poderia supor, não é esmagado pela figura de Mitterrand (interpretado, de forma brilhante, por Michel Bouquet). O realizador opta por dar espaço também à personagem do jornalista. E às suas contradições.

15.5.06

De "cães de guarda" a "cães de colo"

«De todas as tendências lamentáveis que observo na imprensa dos EUA - viragem à direita das televisões, descida das tiragens dos diários, prisão de jornalistas, constante manipulação informativa - nada é mais perturbador do que o servilismo da imprensa no período que antecedeu a invasão do Iraque. Os jornalistas engoliram, sem fazer perguntas, tudo o que o Pentágono e a Casa Branca inventaram».

Esta frase, extraída de um texto todo ele demolidor para os jornalistas dos EUA, não é de nenhum anti-americano primário, de Freitas do Amaral versão pré-governo Sócrates, de um Carrilho fulo com os jornalistas ou mesmo de um escriba do Avante!

É de Helen Thomas, jornalista do grupo Hearst. A mais antiga correspondente na Casa Branca escreveu o artigo "Onde foi parar o nosso espírito crítico?" sem papas na língua. O texto pode, e deve, ser lido num recente número do Courrier Internacional (4 de Maio).

12.5.06

Watergates

Agora que o "Watergate francês", como lhe chama a imprensa, está ao rubro, mostrando a parte mais sórdida e sinistra da política contemporânea, é uma boa altura para revisitar Os Homens do Presidente.

Este filme, realizado por Alan J. Pakula, é um clássico absoluto na relação entre o jornalismo e o cinema e acaba, finalmente, de ser lançado em DVD no mercado português pela mão da Warner.

Um mergulho minucioso no jornalismo de investigação (o mais nobre, o mais desprezado...) e na podridão total do sistema na era Nixon.

E a história repete-se.

10.5.06

Jornais online crescem

E, no entanto, os jornais online movem-se...

«Apesar do contínuo declínio na circulação dos jornais diários em versão papel, os dados divulgados pela Associação de Jornais Diários norte-americana (NAA na sua sigla inglesa), referentes ao primeiro trimestre, mostram que o número de visitantes das versões online desses mesmos jornais está a aumentar de dia para dia.» (Público)

Há aqui dois sinais importantes para a imprensa norte-americana, e não só: a confirmação da tendência de queda dos jornais em papel, por um lado, e o aumento da captação de leitores através das respectivas edições online, por outro.

Também na Europa convém estar atento a estes indicadores. Para se ir percebendo que, mais do que fazer malabarismos, tantas vezes inúteis, com o papel, é necessário apostar de forma decidida e profissional nos bits informativos da Web.

A ler:
Jornais online em Portugal esperam por investimento

Retoma no ciberjornalismo

9.5.06

Canal Porto: quatro jornalistas

O Porto Canal, noticia hoje o Público, arranca no dia 23 de Junho, na TV Cabo. Funcionará em regima aberto, 24 horas por dia.

A boa notícia é acompanhada de uma primeira desilusão: o canal terá apenas quatro jornalistas. E a pergunta é óbvia: que raio de cobertura informativa se faz de uma região como a do Porto com quatro jornalistas?

4.5.06

Sol à vista

Primeira nota: Sol não é nome que se dê a um jornal que quer vir a concorrer com o Expresso. Sol é a palavra portuguesa para Sun, um tablóide inglês meio rasca que vende mais de quatro milhões de cópias por dia. Sol evoca clube de férias, agência de viagens, remédio vitamínico (lembra-me logo o Tonosol) ou jardim infantil.

Segunda nota: José António Saraiva promete «um jornal como nunca se viu». Era bom que assim fosse, pois os jornais portugueses no activo estão sem cartuchos para queimar. Mas, pelo que se viu na apresentação, o jornal é muito a cara do Expresso. Teremos mais do mesmo com embrulho novo?

Terceira nota: mal ou bem, é excelente que o Expresso tenha concorrência directa à porta. Quando há concorrência, o pó começa a esvoaçar por cima da cabeça dos muitos jornalistas instalados nas suas rotinas de fábrica de embalagem de notícias.

Quarta nota: o exíguo mercado de emprego vai mexer um bocadinho. Isso, é óptimo.

A ler:
Novo semanário 'Sol' quer fazer sombra ao 'Expresso'

29.4.06

Expresso penitencia-se

A Direcção do Expresso "penitencia-se" na edição de hoje pelo facto de, há quinze dias, ter feito manchete e notícia com o "puxão de orelhas" que Cavaco supostamente iria dar aos deputados no discurso do 25 de Abril.

O Expresso fez, e bem, o que lhe competia. Os leitores agradecem. O que se pede agora é que sejam mais rigorosos e que não repitam episódios destes, pois dão cabo da credibilidade de qualquer jornal. E os tempos, como se sabe, não estão para brincadeiras na imprensa.

27.4.06

Expresso inventa notícias?

Um pequena parte dos três euros que paguei pela penúltima edição do Expresso serviu para pagar uma notícia falsa: Cavaco Silva, afinal, não deu qualquer "puxão de orelhas" aos senhores deputados por causa da "balda da Páscoa".

O director do Expresso deve-me uma explicação.

24.4.06

24 Horas: um jornal gratuito para imprimir

A Web permite hoje a distribuição do jornal convencional através da Internet com o mesmo desenho que é enviado para a rotativa.

Esta realidade está a facilitar o desenvolvimento de uma nova “criatura” jornalística, que conserva intactas as vantagens do diário convencional de papel, incluindo a sua comercialização a baixo preço, mas que incorpora as características do mundo da Web, como a imediatez, a transnacionalidade ou a difusão ilimitada.

Donde, quando até há pouco anos havia uma única "criatura" mediática, agora, graças à Web, há três produtos distintos e complementares: o diário convencional impresso, a versão digital e o jornal que se comercializa na rede para imprimir em casa (em formato PDF, por exemplo) ou ler no ecrã, com a vantagem acrescida dos motores de busca, a edição de textos e a possibilidade de agregar hiperligações.

«A impressão doméstica de jornais e a difusão através da rede de formatos jornalísticos idênticos aos que se distribuem em papel abrem uma nova via cheia de esperanças para os editores de diários», consideram David Valcarce e Álvarez Marcos, autores do livro Ciberperiodismo.

Provando estar atento ao devir inelutável da rede, o diário espanhol El País acaba de lançar um jornal gratuito, "actualizado a cada minuto", em formato PDF. Chama-se 24 Horas e pode ser personalizado a partir de cinco edições disponíveis.

18.4.06

De leituras: Ciberjornalismo, Net, telemóvel

«Num contexto de intensa evolução da tecnologia assume cada vez maior relevância a aproximação entre os mercados da Internet e da telefonia móvel, dois mundos que até agora faziam um percurso de um modo paralelo, sem chegarem a relacionar-se, e que agora mostram uma clara tendência para a convergência, não apenas tecnológica, mas também como oportunidade de negócio a curto, médio e longo prazo, dando forma a um novo canal através do qual corre a ciberinformação: Internet Móvel.»

David Parra Valcarce e José Álvarez Marcos in Ciberperiodismo

15.4.06

A Web social no Público

Após o fim do suplemento Computadores, a informação sobre a Internet tornou-se bem mais escassa no Público. Agora, só de vez em quando podemos ler destaques como o que abre a edição de hoje, sobre as novas relações sociais que a rede está a criar.

O conjunto de textos merece uma leitura atenta e pode ser lido, gratuitamente, no Publico.pt:

Geração MySpace companhia ilimitada
O boom da dot-com, versão 2.0

14.4.06

JN de mal a pior

Algo vai muito podre no reino do JN. Proibir um plenário na redacção do jornal?

Trabalhei no JN durante onze anos. Quando entrei, numa altura em que a banda sonora da redacção ainda era a das máquinas de escrever, o jornal pertencia ao estado. Depois, passou pelas mãos do coronel Luís Silva e da Lusomundo. A seguir, aguentou os muitos anos de incompetência da PT na área dos media.

Mas nunca, nestes períodos, assisti a um tal grau de proibicionismo e perseguição aos jornalistas da casa. Os plenários sempre tiveram lugar na redacção. Nunca um administrador se lembrara de proibir e, pior ainda, ameaçar os jornalistas que participassem num plenário, como aquele que foi convocado para ontem e que acabou por se realizar no auditório do jornal.

Quando o jornal passou para as mãos do empresário-futeboleiro Joaquim Oliveira temi o pior. Ele aí está em todo o seu esplendor.


A ler:
Administração do JN proíbe plenário na redacção (Público, 13.04.2006)